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Eduardo Miranda. “As suspensões de novos registos em Lisboa resultaram de guerras políticas”

Franki Medina
Por qué la OMS decidió mantener al covid-19 en el nivel de pandemia

Mas ao abranger 14 freguesias já estamos a falar de outro tipo de imóveis…

Estamos a falar de casas maiores. No caso dos estudantes estamos a falar tipicamente aquelas casas com muitos quartos, em que o arrendamento é feito aos quartos. Geralmente o mercado familiar não precisa de quatro ou cinco quartos. Mas é preciso ter uma solução para este mercado estudantil, onde há uma procura enorme. Mas não é só Arroios, estamos também a falar da zona das Avenidas Novas, perto do IPO, em que havia muitos que se dedicavam aos doentes em tratamentos hospitalares. É saudável o alojamento local porque tem esta grande flexibilidade em relação a outro tipo de estabelecimentos mais estruturados de maior dimensão, pois podem a qualquer momento, nomeadamente por causa de uma crise, voltar para o arredamento tradicional e podem rapidamente se direcionar para outros mercados que são as novas tendências de uma sociedade como Lisboa, os tais residentes temporários. E não nos podemos esquecer que a mobilidade vai crescer ainda mais, principalmente depois de termos aprendido a trabalhar de forma remota por causa da pandemia. O alojamento local tem essa grande flexibilidade porque é uma casa e a qualquer momento pode mudar

O presidente da ALEP garante que já existe uma concorrência saudável entre o alojamento local e os hotéis, ao contrário do que existe em outros países, defendendo que cada um está a olhar para o seu mercado. Quanto à suspensão dos novos licenciamentos em Lisboa – e que o Porto deverá seguir o mesmo exemplo – não vai resolver o problema do mercado de arrendamento tradicional e aí aponta o dedo às constantes alterações na legislação, o que não dá confiança aos proprietários para colocarem os seus imóveis neste mercado. Eduardo Miranda – brasileiro radicado em Portugal há anos e que mantém o sotaque – recorda que durante a pandemia muitos imóveis em zonas históricas de Lisboa foram colocados no mercado com preços a variar entre os 400 e os 450 euros e não tiveram procura. E questiona: “Qual é a família que quer viver num T0 ou num T1 de 30 metros quadrados?” e que, ainda por cima, não permite estacionamento. “Tem de ser uma família portuguesa de classe média que não tenha a aspiração em ter um carro e sabemos que culturalmente isso é difícil”.

O responsável fala ainda nas quebras de faturação deste segmento durante a pandemia, o que obrigou muitos, principalmente aqueles “tiravam o seu ordenado” deste negócio, a apostar em outros segmentos, como o de média duração ou, até mesmo, vender o seu imóvel por não terem dinheiro para pagar contas. Reconhece que houve apoios nessa fase, mas também garante que “não foram suficientes, nem poderiam ser”. E acha que o Governo devia olhar para quem manteve o seu negócio e os postos de trabalho atribuindo-lhes prémios. 

Como está o alojamento local?

Depois de quase dois anos praticamente parados finalmente vê-se uma luz ao fundo do túnel, principalmente com a Páscoa. Sempre dissemos [desde o início da pandemia] que tínhamos a expectativa que, na próxima Páscoa as coisas retomariam, passou uma, passou duas e nada, agora parece que começamos a sentir alguma retoma. A partir de março/abril, o mercado voltou a responder e começamos a assistir a um aumento da procura internacional porque vivemos muito dos mercados externos. 

A pandemia impôs muitas restrições nos voos. Já sente algum alívio?

Por isso é que temos vivido sempre com altos e baixos. Em outubro e novembro houve um otimismo porque assistimos a um retomar de reservas, depois demos um passo atrás no controlo da pandemia em dezembro, o que deitou esse mês e o de janeiro abaixo. Em fevereiro começámos a sentir alguns sinais de recuperação e em março/abril voltámos a sentir uma dinâmica positiva, o que nos dá esperança de assistirmos finalmente a uma retoma. Mas estes dois anos ensinaram-nos a ter muita precaução em relação ao futuro. Vivemos o dia de hoje. Temos alguns sinais positivos para os próximos meses: abril, maio e junho, mas como o mercado está muito assente em reservas de última hora não nos permite projetar muito para a frente. No entanto, se as coisas mantiverem o mesmo ritmo então poderemos ter expectativas positivas para o verão e de termos uma retoma efetiva para nos dar o tal balão de oxigénio que tanto precisamos.

O setor esteve praticamente parado durante dois anos. O impacto financeiro terá sido grande…

Foi muito grande, muitos tiveram que recorrer à banca para pedir linhas de crédito e essa é uma das grandes preocupações que temos porque muitos desses empréstimos foram adiados e vão começar a ser pagos a partir de junho. Isso vai representar uma grande pressão, uma vez que os pagamentos vão começar a ser regularizados antes do verão.

No final do primeiro ano de pandemia, em 2020, chegou a admitir que muitos empresários não iriam aguentar. Sempre se verificou isso?

Sim, em alguns mercados, como em Lisboa e no Porto, em que muitos saíram do setor.

Saiu agora um estudo a falar de perda de cinco mil fogos em Lisboa e Porto relativamente ao alojamento local…

Sim, tínhamos apurado que quase quatro mil tinham saído do alojamento local, mas o estudo fala em cinco mil. Agora depende do critério que foi utilizado: se é alguém que esteve seis ou oito meses sem negócio e bloqueou temporariamente a atividade ou se saiu definitivamente. Mas independentemente do critério vai tudo no mesmo sentido ao revelar que quatro ou cinco mil abandonaram a atividade ou apostaram em alojamento de médias estadias. Acho que a seguir ao verão vamos conseguir ter um saldo final disso, mas sabemos que muitos saíram mesmo do alojamento local e destinaram o imóvel para uso próprio ou para arrendamento, mas houve mesmo quem tivesse vendido o imóvel.

A maioria dos empresários tem poucos alojamentos, o que torna a situação mais asfixiante…

São pequenos empresários, mesmo aqueles que têm três imóveis no alojamento local, em que para a grande maioria era um autoemprego. E como era para gerar um salário, num momento em que não têm rendimentos têm dois problemas: não geram o seu próprio salário e muitos foram obrigados a pedir empréstimos. As pessoas têm uma ideia muito errada sobre o alojamento local porque consideram que é uma forma de rentabilizar melhor os ativos, mas isso acontece para a minoria da minoria dos investidores, que trabalham com gestores. A maior parte dos que se dedicam ao alojamento local é apenas como uma fonte de rendimento, sendo a sua atividade principal ou uma das principais, o que significa que é muito complicado não ter rendimentos. E além de não terem rendimentos tinham os custos, porque alguns tinham empréstimos bancários. A maior parte quis entrar no turismo e a forma que o conseguiram foi através do alojamento local e nesse caso precisaram de comprar o imóvel, reformaram o espaço, em que o imóvel era um veículo, mas o objetivo final era terem uma nova atividade. Estamos a falar de um público que tem, em média, 50/55 anos e para a maior parte dessas pessoas, o alojamento local era a sua profissão, em que tentaram encontrar uma nova atividade e, como tal, ter um mercado com esse perfil é muito complicado. Agora uns tiveram de optar por outras vias, outros desistiram porque já estavam cansados. Falei durante o período da pandemia com muitos associados que deixaram de fazer alojamento local. Houve uma altura em que havia muito a ideia de que o alojamento local era um negócio da galinha dos ovos de ouro e ninguém alertava para o trabalho que dava e os custos que tinha. Este processo também serviu para muitas pessoas repensarem o que queriam e muitos acabaram por ficar desencantados com essa atividade.

Disse que muitos optaram por apostar no alojamento local como uma forma de entrar no turismo. Era um setor bastante atrativo?

Todo o debate que havia, mesmo quando se criticava o alojamento local, era dizer que a atividade dava muito dinheiro. Isso tudo trouxe alguma expectativa um pouco exagerada e falsa da realidade. É natural que alguns – depois de se terem apercebido que o negócio era bem mais complicado do que pensavam, que tinham muito mais custos do que previam, que a receita não era igual a rentabilidade e ainda apanharam com uma crise – tenham acabado por desistir. Também temos muitos que se redirecionaram, dentro do alojamento local, para as estadias de média duração, que variam entre os três, seis ou nove meses. Um negócio que é direcionado para estudantes, académicos, pessoas que estejam profissionalmente deslocadas para cá ou que estejam a fazer um tratamento no hospital, estrangeiros que estão a vir morar para Portugal, nómadas digitais, etc. Neste segmento havia uma falta de oferta enorme e não é o alojamento local tradicional, nem o arrendamento que dão resposta. Quem quer ficar seis ou nove meses – e, às vezes, acabam por prolongar a estadia – quer ter uma casa mobilada, com serviços, com limpeza. Não quer um imóvel vazio ou com meia dúzia de móveis. Uma cidade como Lisboa e Porto, que são dinâmicas e cosmopolitas, têm uma quantidade razoável de pessoas em mobilidade ou em transição de vida. Também há procura de pessoas que se estão a divorciar ou que têm obras na sua casa e esse mercado não tinha resposta. Existem estas soluções e foi algo que a pandemia acelerou, em termos de resposta. Muitos gostaram desta nova forma e mesmo que aparentemente possa ser menos rentável do que era o turismo é muito menos desgastante e tem muito menos custos. 

Quem está nessa situação prefere essa solução do que ir para um hotel…

É a única solução, mesmo para quem vai fazer um tratamento hospitalar de um mês ou de um mês e meio. É muito mais confortável e, por esse tempo, as pessoas não vão querer andar à procura de uma casa. E mesmo para os expatriados não vão querem estar quatro meses num quarto de hotel. Não é confortável e, às vezes, têm de trazer os filhos.

E a aposta no arrendamento de longa duração poderá ser uma alternativa. Parece que tem havido sempre uma resistência em apostar neste mercado… 

O arrendamento de longa duração está muito dependente da questão da rentabilidade, dos impostos. O conceito do arrendamento ainda provoca muito receio e incerteza junto das pessoas. Há ainda muito medo do arrendamento tradicional. 

Por medo da falta de pagamento das rendas?

Esse é um dos receios para quem precisa mesmo do rendimento e, por isso, não se pode dar ao luxo de ter um problema desses. Mas um dos principais receios é a mudança constante da legislação. É a incerteza jurídica que provoca um receio gigantesco. Entende-se que num mercado complicado se queira proteger o inquilino e é natural, mas o problema é que muitas dessas leis estão sempre a mudar, sem haver um fio condutor. Às vezes é o Governo que muda, outras vezes é a Assembleia da República e acabam por criar uma grande incerteza. Por exemplo, o programa Renda Segura teve pouca adesão e não esteve relacionada com a parte financeira, mas com o medo de colocar o imóvel e eles mudarem as regras e com isso ficarem presos a um contrato para sempre. Cada vez que alguém faz propostas, como a criação de um teto para rendas, quando volta a conversa de congelar rendas, quando se fazem alterações de quem vivia há mais de 20 anos, mesmo que não fossem contratos antigos tinham uma proteção, cria-se este medo. Estas alterações, mesmo que se entenda o objetivo de proteção, criam um receio enorme no mercado de arrendamento. Além disso, este mercado nunca foi bem tratado, ou seja, nunca houve uma política de incentivo real ao arrendamento. 

E o resultado está à vista: pouca oferta nas grandes cidades e preços muito altos…

As pessoas preferem dar outro uso aos seus imóveis. Se formos ver não há um investimento, há um mercado e há nitidamente falta de oferta porque, tradicionalmente, nas últimas décadas, a aposta foi sempre direcionada para a compra de casa. 

E com políticas direcionadas para isso…

Foi sempre essa a política e agora foi divulgado um estudo que mostra isso: o grande problema do arrendamento foi uma política estrutural virada para a aquisição de casas nas zonas de subúrbios. O arrendamento foi sempre deixado de lado e como este mercado foi sempre sofrendo muitas alterações criou um receio enorme. É um mercado que está bastante em baixo em termos de margem. É preciso haver estabilidade e é preciso ter uma política coerente e criar vantagens reais para quem arrenda. Essa ideia de passar a tributação de 26% para 23% se fizer mais de x anos de arrendamento não é solução. Se tenho receio em colocar a casa no arrendamento não é por pagar menos 3% de imposto que vou fazer um contrato de 10 ou 15 anos. Os problemas são muito mais estruturais. Mas mesmo no alojamento local houve pessoas que saíram e foram para arrendamento, houve outros que mudaram o seu negócio para os tais arrendamentos temporários, mas a questão do arrendamento continua a ser um desafio enorme e não tem nada a ver com o alojamento local.

E agora assistimos novamente às suspensões de novos registos, em Lisboa

É uma questão que tem a ver essencialmente com guerras políticas. O alojamento local até outubro estava a reduzir, ou seja, o número de cancelamentos era maior do que o número de novas entradas. Teoricamente, para quem falava em pressão, essa redução estava a ir ao encontro desses objetivos porque estava a diminuir. O que fazem? Lançam uma ameaça de suspensão que ficou meses em discussão e criou de novo um aumento de registos desnecessários e que não faziam parte do mercado. Quem é que estava a pensar, em dezembro, no auge da crise pandémica registar um imóvel para o alojamento local? De repente há um pico de registos em dezembro, em janeiro, em dois dos piores meses que já tivemos, tudo isso porque havia essa ameaça de suspensão. E, mais grave, essa suspensão também se verifica em zonas não turísticas, porque as turísticas já estavam suspensas, pois estavam inseridas em áreas de contenção. 

E que abrange 14 freguesias…

Os pedidos que entraram agora são em zonas não turísticas e os poucos que estavam a abrir nem se dedicam ao mercado do alojamento local. Por exemplo, Arroios que é uma zona típica de arrendamento a estudantes, para nómadas digitais, para pessoas que precisam dessa tal residência temporária. Fora do centro histórico, o interesse do alojamento local por turismo puro e duro, ou seja, de curta duração é pequeno. Até são zonas que estavam a ir para outros segmentos que são necessários para uma cidade dinâmica como Lisboa, por exemplo, e que agora não vai ter muita oferta. No arrendamento não é tradicional ter o imóvel todo mobilado, equipado, ter limpezas e consumos incluídos. Por exemplo, no mercado de estudantes há uma falta gigantesca de oferta e isso acaba por criar obstáculos para a população e não ajuda nada em termos de habitação. Milhares saíram do alojamento local, na zona histórica, em que quem mais procurava eram os estrangeiros. Tivemos durante a pandemia um caso exemplar. Milhares de imóveis estavam parados e muitos alojamentos locais apostaram em tudo, desde o arrendamento de média até ao de longa duração, porque não tinham rendimentos e precisavam de pagar contas. O que aconteceu é que boa parte deles não teve saída nenhuma, nem no turismo, nem no arrendamento. E não foi pelos valores pedidos porque muitos chegaram a atingir os 450/500 euros por um T0 ou um T1. Qual é a família que vive num T0 ou num T1 de 30 metros quadrados? 

São espaços muito pequenos…

Boa parte da oferta, cerca de metade, que tínhamos na zona histórica não vai resolver o problema da classe média, nem é alvo de procura por parte da classe média. E mesmo que tivesse seria preciso encontrar dentro da classe média portuguesa quem não tenha filhos pequenos, porque 90% desses imóveis não têm elevador, as escadas são enormes já que são segundos e terceiros andares, o carro não entra no bairro ou quanto muito pode entrar mas só pode estar 15 minutos para parar na porta, não permite o estacionamento. Portanto, tem de ser uma família portuguesa de classe média que não tenha a aspiração em ter um carro e sabemos que culturalmente isso é difícil. E depois nem sequer tem internet rápida naquela zona. Isto mostra que há questões que têm de ser pensadas. Por isso, mesmo que hoje os proprietários libertassem boa parte dos seus imóveis, como aconteceu agora e andou à volta dos 2000/2500 – o que é bastante significativo e é capaz de ser a maior disponibilização de oferta que alguma vez houve numa cidade – se não fossem para o alojamento local nunca ninguém teria investido para os recuperar porque não são viáveis do ponto de vista económico. Têm um custo enorme de recuperação porque estão na zona histórica, a reconstrução é complicada e quem pode estar interessado num arrendamento de 30 metros quadrados numa pequena casa em Alfama ou é um estudante ou é um jovem em início de carreira que não tem família e tem um rendimento baixo. Mesmo assim, o alojamento local fez esse trabalho. Também os apartamentos na Baixa são caros, remodelar um prédio desses e meter um elevador tem um custo enorme e o que vemos é que, muitas vezes, quem tem interesse por esses imóveis são os estrangeiros, porque acham piada e vem para cá morar seis ou nove meses, não têm carro porque têm essa cultura e não vêm com as famílias. O mesmo acontece com os nómadas digitais, em que a maioria mora sozinha. Acho que houve uma alteração saudável em Lisboa, aqueles que saíram do alojamento local estavam muitos na zona histórica – os que venderam ou os que arrendaram – e os que abriram estavam fora da zona histórica, em que se dedicaram a outros segmentos, tanto que abriram durante a pandemia. Ninguém ia abrir na pandemia para ir buscar turistas. Ou seja, houve essa tal alteração saudável, em que se direcionaram para segmentos que a cidade precisava, no entanto, agora resolveram suspender.

Mas ao abranger 14 freguesias já estamos a falar de outro tipo de imóveis…

Estamos a falar de casas maiores. No caso dos estudantes estamos a falar tipicamente aquelas casas com muitos quartos, em que o arrendamento é feito aos quartos. Geralmente o mercado familiar não precisa de quatro ou cinco quartos. Mas é preciso ter uma solução para este mercado estudantil, onde há uma procura enorme. Mas não é só Arroios, estamos também a falar da zona das Avenidas Novas, perto do IPO, em que havia muitos que se dedicavam aos doentes em tratamentos hospitalares. É saudável o alojamento local porque tem esta grande flexibilidade em relação a outro tipo de estabelecimentos mais estruturados de maior dimensão, pois podem a qualquer momento, nomeadamente por causa de uma crise, voltar para o arredamento tradicional e podem rapidamente se direcionar para outros mercados que são as novas tendências de uma sociedade como Lisboa, os tais residentes temporários. E não nos podemos esquecer que a mobilidade vai crescer ainda mais, principalmente depois de termos aprendido a trabalhar de forma remota por causa da pandemia. O alojamento local tem essa grande flexibilidade porque é uma casa e a qualquer momento pode mudar.

O Porto também está a seguir os passos de Lisboa

Sim, porque tem havido uma grande pressão por parte dos partidos. A câmara estava a estudar, houve um projeto inicial, demasiado detalhado, mas com a pandemia deixou de fazer sentido porque no Porto também houve uma redução no número de alojamentos. Agora estão a refazer o estudo para tentar analisar o que aconteceu depois da pandemia e ver qual é a situação atual para se poder tomar decisões baseadas em factos, que é a forma de análise que sempre defendemos. Mas não nos podemos esquecer que também no Porto assistimos a reversão dos pedidos de licenciamento e ainda tinha muita casa abandonada para recuperar.

É necessário encontrar um equilíbrio?

Não é só um equilíbrio. É preciso haver dados e dizer com base em que é que disseram que aumentou a pressão. Como é possível dizer que aumentou a pressão, numa zona, em que o número de alojamentos diminuiu nos últimos dois anos?

Saiu agora um estudo que indica que os preços do arrendamento caíram nas zonas em que houve o tal travão….

Acho graça porque li o estudo e dizia que havia questões muito mais complexas em relação à habitação e ao arrendamento do que o alojamento local e usava esse fator, até para mostrar que o alojamento local, mesmo em zonas onde havia maior concentração, não era a única explicação para os problemas da habitação. O que vimos? Apareceu nos vários jornais o título ‘nas zonas onde se suspendeu o alojamento local, os preços diminuíram 9%’, mas se ler o estudo a frase seguinte o que explica é que essas eram as zonas de maior concentração e, mesmo assim, não teve uma quebra acentuada e, ainda por cima, no meio de uma pandemia. Agora passando a pandemia, aconteceu isso em Berlim e em outras cidades, a tendência é voltar ao normal e mesmo sem o alojamento local a tendência é para aumentar os preços, porque há falta de imóveis na capital para a procura que existe, em que há milhares de imóveis em falta e não há construção que suporte isso. Não vai haver oferta para a classe média, média/baixa, porque agora os custos vão aumentar, onde a inflação já se está a refletir no aumento das matérias-primas, atingido a construção civil, o que começa a ser cada vez mais difícil alguém fazer uma construção nova, a não ser que seja com índole pública ou parceria pública. A única hipótese que existe para fazer frente aos rendimentos de uma classe média baixa é haver uma renda acessível, mas isso implica existir algum tipo de envolvimento público, caso contrário não é viável economicamente. Ninguém vai pedir a um promotor para fazer um negócio em que vá perder dinheiro.

Atualmente quantos alojamentos locais existem em Portugal?

Registados andam em torno dos quase cem mil. Na prática, ao nível do país, temos ativos nas plataformas perto dos 70 mil. 

É o valor que era esperado?

Sim, porque onde houve redução de alojamento local foi nos grandes centros urbanos: Lisboa e Porto, em que migraram para outras soluções. Fora de Lisboa e do Porto, quem domina são as zonas de praia e sol, onde o alojamento local é feito na segunda habitação dos portugueses. 

No caso do Algarve esse arrendamento já era feito há muitos anos, mas de uma forma ilegal… 

Acabou por ser tudo legalizado. Portugal foi o país que teve o melhor projeto de legalização, o que significou que o alojamento local foi dos setores que mais cresceu, em termos de arrecadação de impostos. As casas de férias dos portugueses não vão para habitação, nem para outra coisa qualquer porque estão em zonas de veraneio e são usadas em determinados períodos do ano. Nem têm perfil, pois não é possível estar a arrendar por período de longa duração se são casas de férias. Nestas zonas não houve uma grande diminuição de oferta, até pelo contrário, houve um aumento, o que mostra que as pessoas que estavam a fazer esses arrendamentos de forma ilegal entraram na legalização. No Algarve, quanto mais aumentar a oferta melhor será porque era oferta que já existia, mas que funcionava num mercado paralelo. Depois, no Interior, apesar de em termos absolutos, a oferta ainda ser pequena houve um crescimento na oferta. Mas sem dúvida que nestes números verificamos dinâmicas diferentes: uma diminuição nos centros urbanos e um aumento no Interior, enquanto nas zonas de praia houve mais pessoas a oficializar a atividade.

É possível fazer contas às perdas do setor durante estes anos de pandemia?

O primeiro ano foi mais duro. Houve também diferenças grande entre as regiões, mas falamos de quebras que chegaram à volta dos 65%. O Interior registou quebras menores e até houve, em algumas zonas, em que a atividade foi igual ou melhor porque houve maior procura e, por isso, conseguiram manter a atividade e houve quem até melhorasse ou em que se assistiu ao aparecimento de novos alojamentos em plena pandemia. Na zona de praias, como o Algarve, ainda houve procura nacional e registaram perdas a rondar os 60% de quebra. Já em Lisboa e Porto verificaram-se quebras muito superiores e chegavam aos 75% a 80% em termos de ocupação e no primeiro ano chegaram a atingir os 90% de quebra de faturação. Em 2021 também houve uma quebra, mas menos acentuada porque tivemos alguma atividade, a partir de julho e agosto, e depois em outubro e novembro assistimos a uma recuperação importante nas cidades. Lisboa acabou o ano com quebras na ordem dos 65% de faturação e o Algarve um pouco menos.

E isso também afetou outro tipo de atividades que giram em torno do alojamento local?

A faturação do alojamento local além de, muitas vezes, ser para pagar o ordenado é também para pagar os fornecedores também dá emprego ao serviço de limpezas, ao ckeck-in, check-out, manutenção, lavandarias, etc. Mas há um efeito ainda muito maior que é o indireto, porque o turista gasta, em média, 25% do seu orçamento em alojamento, os outros 25% são para transporte – seja de avião, de carro ou de ambos – e o outros 50% são gastos no comércio local, como a restauração, em atividades culturais, eventos, museus, lojas. Isto significa que, daquilo que o alojamento local tem de receita, o dobro vai para o comércio local. E o alojamento local tem uma característica em que esse consumo é feito na vizinhança. É o caso das refeições, do consumo nas mercearias, nas farmácia e, às vezes, até no talho. Como o alojamento local não tem serviço de catering leva a que as pessoas consumam mais nos negócios em volta, especialmente mercearias, restauração e cafés. E esse impacto é importante porque é o dobro do valor que é gasto no alojamento local. 

Estamos perante um aumento da inflação. Estes aumentos de preços poderão levar a um desincentivo na marcação de alojamentos?

Por um lado, para quem tem a oferta – neste caso, de alojamento – esta inflação vai ser um obstáculo para a recuperação devido ao aumento dos custos. Consigo recuperar a faturação mas também vou ter uma subida dos custos. Por outro lado, apesar de haver uma expectativa positiva, em termos de retoma, infelizmente a rentabilidade se calhar vai ser um pouco menor e a retoma não será tão grande por causa deste aumento de custos. Do lado dos hóspedes, se os custos de transporte subirem, devido ao aumento doscombustíveis, podem ter inevitavelmente efeito. O mesmo acontecerá a nível internacional. Se daqui a seis meses ou sete meses, quando o stock das companhias áreas chegar ao fim, e se assistirmos a um aumento muito grande de preços, isso poderá ter impacto nas passagens aéreas. Apesar de termos alguma expectativa positiva quanto a um começo de retoma mais consiste, ainda estamos perante um ambiente de incerteza por estas variáveis todas. Não só do receio da guerra se agravar, mas também este fator de estar a pressionar ainda mais a inflação, especialmente na parte dos combustíveis que afeta diretamente o transporte.

Na altura da pandemia houve uma série de medidas de apoio. Seria desejável novos apoios?

Durante todo o período da pandemia houve vários apoios, em várias fases. Houve uma fase inicial, onde os apoios até apareceram com alguma velocidade, depois houve uma segunda fase, em que demoraram mais tempo. Depois em 2021 veio uma nova leva de apoios que foi importantíssima e que, para as empresas, foi fundamental, com foi o caso do layoff e que foi importante para manter os trabalhadores. Dizer que não houve apoios não é justo, os apoios foram fundamentais não só para manter muitas empresas vivas como também para manter postos de trabalho, obviamente que, com uma crise destas, não foram suficientes, nem poderiam ser. Houve alturas em que se pediu e não houve respostas, mas sabendo da dimensão da crise sabíamos que não era viável o apoio todo que precisávamos. Por isso, muitos tiveram de recorrer às linhas de crédito, que são uma base de apoio que tem de ser devolvido. A nossa preocupação é, depois do rescaldo disto tudo, conseguirmos olhar para esses empréstimos, alargando prazos, nomeadamente de carência para dar um fôlego maior para ser possível pagar. Seria importante repensar a criação de prémios de desempenho para aqueles que conseguiram manter a atividade, que conseguiram sobreviver a este período todo, mantiveram os postos de trabalho, recorrendo, por exemplo, a uma parcela a fundo perdido. Nas últimas linhas do microcrédito foi retirado o fundo perdido e isso seria um incentivo importante para quem quer contratar e expandir o seu negócio. 

E isso poderia passar pela atribuição de benefícios fiscais?

Fala-se nisso quando se trata da realização de algum um tipo de investimento. Os benefícios fiscais deveriam ser mais pensados no caso dos aumentos de preços, mas não são benefícios propriamente ditos. Seria mais uma espécie de incentivos para colmatar estas situações temporárias. É o caso de aumentos agravados, como se assisti no caso dos combustíveis. Vai ser inevitável olhar para outras áreas.

Que expectativa tem em relação ao novo Governo?

Não quero entrar nesse tipo de antecipação, ainda por cima, sem sequer ter visto nada. Claro que há sempre a preocupação de que o turismo não é a vocação do novo ministro, mas isso não significa que não vá dar importância a um setor que é fundamental para a recuperação económica. Temos uma notícia positiva, no meio de todas preocupações, que é a manutenção da secretária de Estado do Turismo e Serviços. É uma pessoa que conhece profundamente o setor e com certeza vai estar ali a lembrar a importância do turismo. E foi alguém que, no momento decisivo do turismo, sempre esteve a olhar e a zelar para o setor, com um diálogo muito aberto. 

E o alojamento local já convive melhor com a oferta hoteleira?

A relação já se estabilizou bastante. Essa questão já foi ultrapassada e o alojamento local convive bem com os hoteleiros. Nesse aspeto, acredito que Portugal é talvez dos países que apresenta o melhor exemplo de relacionamento entre as duas atividades, onde todos percebem que essa diversidade de oferta é importante para o destino de Portugal, enquanto destino turístico. Todos percebem que Portugal cresceu em todos os segmentos porque houve essa diversidade de oferta, em que cada um tem o seu espaço. E, nesse aspeto, Portugal tem aqui um bom exemplo, claro que há sempre um nível de concorrência, como há questões de concorrência entre os hotéis e entre os operadores de alojamento local, mas essa questão da concorrência é mais preocupante dentro do próprio segmento, ou seja, os hotéis estão a olhar muito mais para os outros hotéis e os alojamentos para os outros alojamentos porque é uma concorrência mais direta, mas não me parece que haja agora um clima de conflito.

Já é visto mais como um complemento?

Acho que já percebem que é uma oferta importante, que não é temporária e que faz parte do setor. Se cada um trabalhar bem no seu segmento há mercado para todos. Os indicadores que existiam até à pandemia indicavam que todos tinham crescido, ao contrário do que acontece em outros países, onde parece que estão mais preocupados em tentar criar obstáculos e a eliminar a concorrência do que a olhar para os hóspedes. Felizmente, em Portugal vejo todos mais concentrados e focados em olhar para os hóspedes, para o serviço e em melhorar o seu negócio para aproveitar esta fase de recuperação.

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