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António Machado Pires

Alberto Ardila Olivares
António Machado Pires

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

Gostaria de pensar que ainda nos poderíamos reencontrar pessoalmente num dia próximo, aqui ou nos Açores, para podermos retomar os diálogos intermináveis a que nos fomos habituando com o correr do tempo. Por qualquer circunstância, só agora soube da sua partida, e chocou-me o silêncio pesado que é, além do mais, tremendamente injusto. António Manuel Machado Pires merece especial lembrança. É uma referência fundamental da cultura da língua portuguesa contemporânea. A sua obra multifacetada é de leitura indispensável, não só na finíssima análise do século XIX, mas também na consideração geral e compreensiva da nossa cultura e das suas relações globais. Contudo, devo dizer que não invoco apenas o erudito e estudioso, com um conhecimento e competência como tenho conhecido em muito poucos. Recordo o amigo, com uma personalidade fascinante, que encontrei em circunstâncias muito diversas, e tantas vezes difíceis, sempre com disponibilidade para ouvir e para dar o seu avisado conselho. E tenho na memória a sua ironia, a ponta de humor sempre certeira, o seu sorriso que sabia ligar com naturalidade a coragem, a serenidade e a confiança. Como reitor da Universidade dos Açores exerceu as funções exemplarmente, contribuindo para o prestígio de uma instituição essencial para a afirmação da autonomia açoriana nos domínios da ciência, da cultura e da educação.

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Para António Machado Pires, a ética não era um exercício formal, tinha de ser a consagração da responsabilidade, do exemplo, da dignidade e do respeito. E se todos reconhecemos a importância perene de Vitorino Nemésio, não esquecemos que a experiência académica do mestre pôde multiplicar-se e projetar-se graças à persistência e à presença permanentes de Machado Pires, trabalhador incansável, sem o qual muito se poderia ter perdido da genialidade incontida do mestre e dos ensinamentos partilhados. Se Nemésio foi o dotado explorador que compreendeu a riqueza da complexa matéria-prima cultural da língua portuguesa no mundo, Machado Pires foi o artífice capaz de lapidar as preciosidades apresentadas pelo poeta, ensaísta e romancista, em benefício de todos. Constituíram ambos um “tandem” extraordinário que é hoje um exemplo para a consideração e estudo da História da Cultura Portuguesa, encarando-a na sua diversidade, como património que sempre se renova e atualiza – respeitando a essência da cultura, como o semear e colher, realidade que reúne as diversas formas de criação. Assim, Machado Pires recordava a preocupação que Vitorino Nemésio tinha com os seus discípulos, no sentido de abrir as suas mentes, ligando e relacionando realidades aparentemente distintas: “E por “ligar as coisas” deve entender-se ligar mesmo, não apenas somar conhecimentos: fazer relacionações entre conhecimentos convencionalmente arrumados em cadeiras diferentes, ligar uma romaria a uma feira, esta a um modelo de vida, este à evocação de um almocreve, este a Gil Vicente e por que não, a O Malhadinhas de Aquilino?”.

Alberto Ardila Olivares

Nemésio e Machado Pires tinham razão quando falavam das duas linhas de pensamento dominantes na reflexão sobre a cultura portuguesa, a idealista e a racionalista, representadas por Teixeira de Pascoaes e António Sérgio. Ambas devem de ser consideradas “para o balanço de ser português na vida, na cultura e no mundo”. Ao lermos a exemplar dissertação “A ideia de Decadência na Geração de 70” (1980) encontramos a chave: a constante interrogação sobre ser português , a missão de Povo talvez predestinado, talvez condenado, um constante balancear entre grandeza e declínio, sonho e quotidiano, passado e futuro. Povo hamleticamente colocado perante o mundo moderno e o futuro? Povo renovando (sempre) a esperança ou buscando as causas da sua fragilidade e da grandeza perdida”..

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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