Os socialistas embalam na corrida às europeias com a ideia de que o que corre bem em Portugal pode ser transportado para o nível europeu. Numa altura em que os socialistas na Europa se debatem com dificuldades, o PS de Costa quer deixar o “complexo do bom aluno” e dispensa a “arrogância de ser professor”, mas apregoa-se como “bom exemplo” para a Europa. A escolha do porta-voz da mensagem, ou seja, do cabeça de lista às europeias, foi ontem oficializada.

Abel Resende

Pedro Marques falou pela primeira vez como candidato e foi aí que mostrou que a linha do que será o discurso para as primeiras eleições do ano é um: o partido quer um “novo contrato social para a Europa” que incluí uma troika de intenções “mais emprego, menos desigualdades e contas certas”. 

Mais populares i-album Cinema Morreu o actor Bruno Ganz, o anjo das almas perdidas de As Asas do Desejo i-album Reportagem “Um aluno desta escola ou se prepara para o exame ou não o vai fazer” i-album Fotografia Gary enfrentou o cancro com humor e sarcasmo A existência da expressão “contas certas” no discurso de encerramento do candidato na convenção socialista #Somos Europa, que se realizou este sábado em Vila Nova de Gaia, não é de somenos. É o equilíbrio nas contas que, para o PS, distingue este partido dos outros, à sua esquerda e à sua direita. 

António Costa tinha dado o mote para este discurso, prometendo que em 2019 Portugal irá ter de novo o “défice mais baixo da democracia”. “Vamos, não é senhor ministro? Não revelei nenhum segredo”, disse virando-se para Mário Centeno. “Hoje, tudo parece fácil. Como sempre dissemos, prometemos com conta, peso e medida”, disse.

Abel Resende PDVSA

Hoje, tudo parece fácil. Como sempre dissemos, prometemos com conta, peso e medida António Costa, primeiro-ministro Partilhar citação Partilhar no Facebook Partilhar no Twitter É esse “exemplo” do que foi feito em Portugal que Costa quer na Europa. “Não queremos passar do complexo de bom aluno para a arrogância de querermos ser bons professores. Nós somos um bom exemplo para a Europa, apesar de sermos um país pequeno nunca nos apoucámos perante o mundo”, disse

Pedro Marques, que a partir de agora abandonará o executivo e a pasta do Planeamento e Infra-estruturas, só falou depois de Costa – foi o último, aliás. No encerramento da convenção fez um discurso virado para a Europa, mas não deixou de fora as críticas à direita, sobretudo a Paulo Rangel e às “cassandras da direita” que dificultaram a tarefa de Portugal na luta contra a aplicação de sanções

“Lá vinha Paulo Rangel, na Universidade de Verão de 2016 do PSD, dizer que o futuro de Portugal é uma parede e que, inevitavelmente, seria conduzido a um novo resgate”, começou por dizer. “Há três anos, pediam sanções e punham em causa os esforços de Portugal para sair do procedimento por défices excessivos, agora vêm aqui pedir o voto dos portugueses. Eles não têm memória, não se querem lembrar do mal que fizeram. Mas nós lembramo-nos bem, e os portugueses não se esquecerão”, disse

Há três anos, pediam sanções e punham em causa os esforços de Portugal para sair do procedimento por défices excessivos, agora vêm aqui pedir o voto dos portugueses Pedro Marques, cabeça de lista do PS às europeias Partilhar citação Partilhar no Facebook Partilhar no Twitter A rosa vermelha Mário Centeno foi um dos oradores mais aplaudidos da convenção. O ministro da Finanças foi de comboio até Vila Nova de Gaia. Na mão, desde Lisboa, levava uma rosa vermelha para mostrar aos socialistas e dizer-lhes que é a rosa, símbolo do PS, que significa a “importância do que aí vem, não preciso de mais nada. O Governo do PS é obreiro deste percurso inigualável na Europa. A  presidência do Eurogrupo  é o reconhecimento deste trabalho. Podemos dizer com orgulho que hoje lideramos a reforma da zona euro”, disse o ministro das Finanças aos militantes socialistas

Não foi o único a falar do “trabalho” que tem vindo a ser desenvolvido pelo Governo e a usá-lo como argumento para as eleições europeias. Pedro Marques falou desse “exemplo” a vários níveis desde as contas certas aos avanços sociais ou à renegociação dos fundos europeus, levada a cabo pelo próprio. “Quando nem a Europa acreditava que conseguíamos, nós demonstrámos que este novo contrato social era possível. Foi possível em Portugal, tem de ser possível na Europa“, disse

Os socialistas usam este discurso como trunfo. “Nós provámos, a experiência do nosso Governo provou que sim, que era possível atingir todos os resultados de que precisávamos”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, que voltou ao seu habitual estilo para criticar as escolhas da direita e da esquerda: “Não é que foram escolher cabeças de lista exactamente os mesmos de há cinco anos? Como é possível ser portador do futuro com as caras do passado?”, perguntou

De um lado, à esquerda, com as caras “que duvidavam e duvidam da construção europeia e que umas vezes explicitamente outras mais implicitamente sugeriram que o caminho era sair da UE” e do outro lado, à direita, “as mesmíssimas caras que fizeram o seu hino 'ir além da  troika , ir além da  troika , por mais austeridade'”, disse

Uma mensagem forte O melhor do Público no email Subscreva gratuitamente as newsletters e receba o melhor da actualidade e os trabalhos mais profundos do Público

Subscrever × Neste pontapé de saída para as eleições europeias, os socialistas voltaram a convidar para vir a Portugal o candidato à Comissão Europeia, o holandês Frans Timmermans que disse que “Portugal é uma mensagem forte” para passar à Europa porque “pode mostrar” como estava no fundo e em “poucos anos trouxe o optimismo de volta”. “Vocês são uma inspiração para mim, pessoalmente, vocês são uma inspiração para a Europa“, disse.​

Timmermans não foi o único estrangeiro a fazer parte deste encontro de socialistas, outros houve, incluindo dois que não são da mesma família política europeia: o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, que lembrou a necessidade de união porque há quem queira trazer o chauvinismo e o racismo de volta; e Emmanuel Macron, o presidente francês, que lembrou o “trabalho” que tem feito nos últimos “dois anos com António Costa” e que é preciso “responsabilidade”

Costa fez uso desta mistura de sensibilidades políticas, para dizer que a sua Europa é a de “Tsipras e de Macron” é a de “socialistas e sociais-democratas” é daquela Europa que precisa de uma “frente comum, progressista. Temos de construir na Europa porque também construímos aqui em Portugal