Donald Trump terá que defender um segundo mandato nas presidenciais de 2020 e já há um nome oficialmente na corrida para o derrotar, dentro do seu próprio partido: Bill Weld, o ex-governador do estado de Massachusetts, o “liberal nos costumes mas também na fiscalidade”, já deu o primeiro passo ao lançar, nesta sexta-feira, o chamado “comité exploratório” para uma eventual candidatura. Tem 73 anos, já foi procurador federal e inscreveu-se no partido republicano há pouco mais de uma semana . Até aqui fora o membro mais conhecido do Partido Libertário.

Abel Resende

Em New Hampshire, local onde se vai realizar a primeira primária que irá eleger o homem ou a mulher que se tornará rival de Trump do lado dos republicanos, Weld disse que o país “enfrenta grandes perigos” e que “já não consegue ficar parado a observar” a situação. “Temos um presidente cuja prioridade é promover-se a si mesmo e não ajudar o país a seguir um melhor caminho”, disse, citado pelo “Boston Herald”.

Abel Resende PDVSA

Em 2016, Weld foi o candidato dos libertários à vice-presidência mas desta vez resolveu integrar o sistema bipartidário norte-americano para ter mais hipóteses de chegar a algum lado com a sua candidatura. É praticamente impossível alguém de um partido que não o republicano ou o democrata chegar a ser nomeado para candidato a um cargo tão alto

O que parece ser fácil de confirmar pelas suas palavras é que partiu para a luta já com as luvas de boxe bem ajustadas. Nesse mesmo discurso em New Hampshire, criticou os republicanos que “exibem todos os sintomas de Síndrome de Estocolmo, identificando-se com o seu captor” e disse que o partido “já perdeu muito tempo a entreter o presidente, indolentemente aceitando o seu narcisismo e o seu comportamento impulsivo e irracional”

Os democratas também foram alvo de duras críticas pelas posições mais esquerdistas que alguns dos seus representantes têm vindo a defender desde que Bernie Sanders acordou, em 2015, todos os socialistas dormentes da América. “Precisamos do oposto ao socialismo. No orçamento federal, as duas coisas mais importantes é cortar impostos e cortar despesa – e cortar na despesa é ainda mais importante”, disse em New Hampshire. Weld acrescentou ainda que é preciso fazer mais para combater as alterações climáticas mas defendeu uma redução do peso do Estado na saúde, uma posição totalmente contrária à dos democratas que defendem um sistema de saúde público e universal

O primeiro a acusar o toque foi o presidente da sede local dos republicanos, Stephen Stepanek. “Nós somos muito inclusivos no Partido Republicano mas alguém que apoiou Barack Obama em 2008 e Hillary Clinton em 2016 como candidato do Partido Libertário precisa mesmo de pensar se é assim tão bem-vindo no Partido Republicano“, disse à imprensa em reação ao discurso de Weld, criticando ainda o facto de Weld ter passado de “libertário para toda a vida” para “concorrer pelos republicanos contra o nosso presidente”

Stepanek é capaz de ter razão. Segundo o site de análise de estatísticas políticas FiveThirtyEight , Trump esmagaria qualquer republicano que tentasse tirar-lhe a nomeação para candidato republicano à presidência. Um incumbente não perde uma nomeação desde Chester A. Arthur na convenção do Partido Republicano em 1884. E Trump desfruta de um índice de aprovação entre os membros do seu partido (sendo dos piores de sempre entre a restante população) mais alto do que, por exemplo, Ronald Reagan e Barack Obama – nenhum dos dois teve problema algum em garantir a nomeação do seu partido

A Fox News publicou uma sondagem, recentemente, que mostra que 87% dos republicanos aprovam o trabalho do presidente até agora. Não existem ainda pesquisas que oponham Weld a Trump mas os primeiros dados sobre as primárias republicanas no geral mostram Trump a liderar por muito, mesmo contra Mitt Romney, o mais conhecido dos seus putativos oponentes

Também é certo que só o facto de haver alguém a decidir opor-se a Trump já pode ser um fator de sobressalto. Os três últimos presidentes que enfrentaram um concorrente nas primárias do próprio partido – Gerald Ford em 1976, Jimmy Carter em 1980 e George H. W. Bush em 1992 – acabaram por perder a eleição geral

Weld parece, porém, uma das mais remotas possibilidades para a ala anti-Trump dos republicanos. Desde que foi eleito como governador do Massachusetts em 1990 e reeleito em 1994 (com uns 71% que ninguém conseguiu de novo), Weld tornou-se o mais notável representante de uma raça em extinção – os republicanos liberais, também apelidados de republicanos de New England, por ser uma região, composta pelos seis estados de Maine, Vermont, New Hampshire, Massachusetts, Connecticut e Rhode Island, onde esta estirpe mais progressista de republicanismo atingiu os maiores sucessos

É natural – mas já foi mais – ver os republicanos dali defenderem coisas como o aumento dos orçamentos para a preservação do ambiente, ou mesmo um estado mais presente na economia e na saúde. Weld é um defensor dos direitos dos homessexuais e do direito à interrupção voluntária da gravidez

O problema de Weld, e ele próprio deve entender bem isto como defensor apaixonado da autoregulação da economia, é que já não há procura pelo seu tipo de republicanismo. De 14 republicanos liberais durante o 104ª Congresso (1995-97) só resta Susan Collins, do México. O partido republicano está a caminhar para a direita desde Richard Nixon e os republicanos liberais que apreciavam o individualismo do estilo “desde que não prejudique ninguém posso fazer quase tudo”, a total confiança no mercado e o culto do trabalho árduo, ficaram sem representante. De facto, algumas das cidades onde Weld teve os seus melhores resultados nos anos 1990 são agora – e quase desde aí – robustos bastiões democratas

Uma sondagem publicada esta semana parece mostrar que nem tudo está perdido para Weld – ou para quem quer que venha a bater-se pela nomeação republicana com Trump. Um terço dos republicanos inquiridos estão dispostos a votar no concorrente de Donald Trump nas primárias, enquanto 51% não. Cerca de 15% não sabem ou não respondem. Os republicanos mais novos, os que pertencem a minorias étnicas ou os mais moderados, normalmente em zonas urbanas, são aqueles que mais rapidamente votariam numa alternativa ao atual presidente