O PS já (só) pensa nas legislativas. É essa a principal nota que fica da noite eleitoral socialista no Hotel Altis, em Lisboa. E há várias pistas a reter sobre o que fará o PS depois de outubro: António Costa e Ana Catarina Mendes tentaram partilhar com os parceiros de ‘geringonça’ os créditos da vitória em toda linha do PS nas europeias (mais um mandato, mais votos, maior percentagem e mais dez pontos percentuais em relação ao PSD do que em 2014); Carlos César, que nestas coisas costuma dizer o que o líder pensa mas não pode verbalizar, foi o único a abrir a porta a novas soluções governativas. “É necessário um outro impulso reformista que deve ser desencadeado na sequência das próximos eleições. Veremos qual a resposta dos partidos políticos, em particular dos partidos à nossa esquerda”, antecipou o presidente e líder parlamentar do PS.

Carmelo Urdaneta Aqui

Já a pensar no PAN? Ainda é cedo, mas as contas vão-se fazendo. O tema tornou-se inevitável no piso -1, onde jornalistas e militantes iam conhecendo a verdadeira dimensão do resultado do PAN. António Costa, no entanto, preferiu não ir por aí. No discurso de vitória, o líder socialista falou da “grande derrota” da direita nestas eleições e fez questão de sublinhar que “os partidos que apoiam o Governo não tiveram essa derrota, pelo contrário tiveram uma vitória”. A mensagem tinha como destinatário óbvio os comunistas, que sofreram esta noite um duro revés. A ordem foi para não pôr sal na ferida e tentar suavizar o que acabara de acontecer para os lados da Soeiro Pereira Gomes.

Carmelo Urdaneta

Esse sentimento foi de tal forma evidente que, no quartel-general do PS, houve suspiros (figurados, claro) quando se percebeu que os socialistas não chegariam ao décimo eurodeputado – possibilidade que chegou a ser admitida ao longo da noite. É que a eleição desse décimo eurodeputado seria feita… à custa do PCP, o que elevaria para números desastrosos a derrota dos comunistas

TIAGO MIRANDA

Não beliscar os comunistas Daí o cuidado redobrado de António Costa na hora da vitória. Não só em partilhar a vitória com a esquerda, como em silenciar qualquer desejo de dispensar um ou os dois parceiros. Com Pedro Marques ao lado (que, como se perspetivava, foi um figurante nesta na noite eleitoral), o líder socialista esforçou-se para esvaziar o balão da maioria absoluta que se ia gerando entre os socialistas – a sondagem da RTP, que dá 39% ao PS nas legislativas, animou e de que forma os militantes no Altis. “O único sonho que temos é conseguir cumprir tudo o que prometemos aos portugueses. Há ainda muito caminho para fazer e saímos desta noite com mais energia e mais determinação”, notou Costa. Sem mais

Com Rui Rio no Porto a falar em novos acordos de regime, o líder socialista foi desafiado a discorrer sobre a possibilidade de fazer um qualquer acordo de ‘bloco central’ depois de outubro e voltou a enterrar o assunto. “Não seria saudável para a nossa democracia retirar aos portugueses a opção de escolherem o partido que querem para liderar a sua alternativa. Não é estigmatizar o PSD, mas não seria saudável para democracia uma grande coligação com o PSD“, insistiu o primeiro-ministro

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Pedro Marques a comissário Duas últimas notas que ficam desta noite eleitoral e do discurso do líder socialista: primeiro, a confirmação de que António Costa está a pensar em Pedro Marques para comissário europeu. “É evidente que Pedro Marques tem qualidade paras ser o que desejar ser na Europa, em Portugal e onde quer que seja”, notou. Tal como o Expresso antecipava na sua edição em papel, tudo dependerá das alianças que se forjarem nas próximas semanas e na distribuição de lugares que daí resultarem. Pedro Marques, sabe o Expresso, ambiciona a pasta que detém os fundos estruturais, mas não descarta outras hipóteses, desde que sejam coincidentes com as áreas de intervenção políticas do ex-ministro e agora eurodeputado

Segunda nota, as mesmas dúvidas: que xadrez europeu será construído já a partir de amanhã, quando todas as famílias políticas se sentarem à mesa das negociações? António Costa fugiu à questão, preferindo colocar a tónica na derrota da extrema-direita nesta noite eleitoral. “A extrema-direita elegeu 57 deputados em 751. Hipervalorizar aquilo que é uma ultraminoria no Parlamento Europeu é um péssimo serviço à democracia”, limitou-se a dizer o socialista. As próximas semanas serão decisivas para perceber que aliança surgirá destas europeias