O deputado e pastor evangélico ultra-radical Marco Feliciano protocolou na Câmara dos Deputados do Brasil um pedido de destituição contra o vice-presidente do país, general Hamilton Mourão. No documento, o deputado a favor de Bolsonaro argumenta que o comportamento público do vice-presidente, elogiado dentro e fora do Brasil pela sua moderação e lucidez política, é, na verdade, uma forma disfarçada de o general “conspirar” contra Jair Bolsonaro e tentar derrubá-lo do cargo. Como exemplos da suposta “conspiração”, o deputado afirma que Hamilton Mourão várias vezes veio a público corrigir declarações ou posturas de Jair Bolsonaro, tentando mostrar que é melhor do que o presidente para governar o Brasil. As correções alegadas por Feliciano realmente ocorreram, e não foram feitas apenas por Mourão mas também por vários ministros e assessores de Bolsonaro, pois o presidente quando fala de improviso em público costuma errar dados, anunciar medidas que nunca foram discutidas no governo, e fazer citações totalmente fora de contexto, obrigando terceiros a esclarecer a situação para a humilhação não ser ainda maior. Outro argumento do pastor, conhecido pelas suas posições contra direitos das mulheres e anti-negros e homossexuais, é que Hamilton Mourão acedeu a um blog onde uma jornalista o elogiava por ter sido ovacionado de pé por professores e alunos da respeitada Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, onde deu uma palestra. No seu blog, a jornalista Rachel Sheherazade comparou o respeito com que Mourão foi recebido nos EUA e os elogios que recebeu da imprensa e de personalidades dos Estados Unidos, onde visitou várias instituições académicas e deu várias palestras, em contraste com as gaffes cometidas por Bolsonaro quando, duas semanas antes, também visitou aquele país, onde a imprensa local o ridicularizou pelas suas posições políticas e comportamento. Jair Bolsonaro até agora não demonstrou apoio à iniciativa do seu aliado pastor, mas também não fez qualquer crítica ao pedido de afastamento protocolado no Parlamento contra o seu vice. Os filhos de Bolsonaro, principalmente o que mais influencia as decisões do pai, o vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro, há muito tentam afastar Hamilton Mourão das decisões do poder, percebendo que os posicionamentos equilibrados e normalmente apaziguadores do vice-presidente evidenciam ainda mais negativamente os constantes erros e ataques de ódio do pai contra tudo e contra todos. O pedido de destituição apresentado por Feliciano só terá qualquer importância se for aceite pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, o que dificilmente acontecerá e, mesmo que seja aceite, ainda terá uma longa tramitação pela frente. No último caso de impeachment ocorrido no Brasil, o da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, houve 19 pedidos de destituição rejeitados antes de ser aceite aquele que levou à destituição da governante quase um ano após o início do processo.