Quando se esperava que o segundo e último debate entre os principais candidatos às eleições espanholas fosse um intensificar do cerco ao socialista Pedro Sánchez, os dois líderes da direita, Pablo Casado (PP) e Albert Rivera (Ciudadanos), acabaram por protagonizar os mais duros confrontos da noite, poupando o atual chefe de Governo aos temas mais sensíveis, como a questão da independência da Catalunha e a natureza da futura maioria parlamentar. A disputa entre os dois foi tão evidente que Sánchez chegou a classificar o debate de “primárias da direita”.

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Na cabeça de todos estava o filme do dia anterior. Rivera, que liderou a ofensiva contra Sánchez, acabou por ser considerado o grande vencedor do debate de segunda-feira, não tendo sequer poupado os conservadores, parceiros naturais nestas eleições. “O milagre económico do PP está na prisão”, chegou a dizer Rivera, numa referência a Rodrigo Rato, ex-vice-presidente do Governo espanhol e antigo diretor-geral do Fundo Monetário Internacional, preso por corrupção

Desta vez, Pablo Casado recuperou alguma iniciativa e aumentou a agressividade, tentando recuperar o terreno perdido na véspera para o líder do Ciudadanos — além de se demarcar de Rivera na política económica ou na chamada agenda fracturante, por exemplo — Casado chegou mesmo a sugerir que um voto no Ciudadanos era um voto que ajudava o PSOE. A estratégia, no entanto, foi aproveitada por Sánchez, que tentou aproveitar as divisões à direita para reforçar a imagem de único garante de estabilidade

Rivera, por sua vez, manteve o estilo beligerante. Um dos momentos mais tensos do debate, aliás, aconteceu quando o líder do Ciudadanos ofereceu a tese de doutoramento de Pedro Sánchez ao próprio —o socialista foi acusado de plágio. “Trouxe um livro que você nunca leu: a sua tese de doutoramento”, atirou o liberal

Sánchez, bem mais interventivo do que no debate anterior, respondeu na mesma moeda e entregou a Rivera um livro de Santiago Abascal, líder do partido de extrema-direita Vox. Essa foi, aliás, a primeira parte da estratégia do socialista: dramatizar e tentar colar PP e Ciudadanos ao partido de Abascal, algo que já tinha feito na segunda-feira. A segunda parte da estratégia foi assumir-se como campeão do combate à violência de género, sugerindo que PP e Ciudadanos eram cúmplices dos que atentam contra os direitos das mulheres

Mais: ao contrário do que aconteceu na segunda-feira, Sánchez conseguiu evitar grandes perguntas sobre o dossiê “Catalunha“. Foi claro a rejeitar qualquer hipótese de referendo e de independência, e não foi desafiado a esclarecer se concederá ou não indultos aos separatistas catalães. Tão pouco respondeu à questão de um milhão de dólares: que aliança fará se falhar a maioria, como é provável que aconteça? E essa aliança contará ou não com os independentistas? Sánchez não disse. O facto de o tema não ter dominado o debate, como aconteceu na véspera, ajudou a fortalecer a posição do chefe de Governo

Pablo Iglesias, por fim, não se desviou um centímetro da sua estratégia: explicou com clareza as propostas do Unidos Podemos (forte regulação no mercado de habitação e aumento da carga fiscal para os maiores contribuintes, por exemplo), reforçou a mensagem de que o PSOE sozinho não aplicará uma agenda de esquerda e manteve uma posição moderada ao longo de todo o debate, chegando mesmo a dizer “sentir vergonha” dos ataques que estavam a ser feitos e a pedir calma aos seus companheiros de debate. Com a extrema-esquerda no bolso, Iglesias procurou pescar votos no eleitorado que poderia, em teoria, cair para o PSOE, reforçando a ideia de um partido institucional, capaz de exercer funções governativas. Resta saber se será suficiente para evitar o voto útil no PSOE.