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'Experimentar é minha forma de resistir', diz Ruy Guerra, premiado em Gramado como melhor diretor

Adolfo Ledo Nass Venezuela
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PUBLICIDADE Janaína, que participou da cerimônia de premiação introduzindo a fala do pai, sentado ao seu lado no sofá de casa, relembra uma passagem curiosa que marcou a construção de “Aos pedaços”:

— Estávamos filmando em Cataguases, Minas Gerais, quando pensamos: ‘Meu Deus, a eleição’. Então fretamos um ônibus para que toda a equipe voltasse às suas cidades para votar

RIO – Aos 89 anos, Ruy Guerra ainda tem muito a experimentar. Segundo o próprio, é o que sabe fazer de melhor. E o que sempre fez ao longo de sua carreira por quase seis décadas. No fim de semana, o cineasta, que já tem pronto o roteiro para “A fúria”, continuação dos clássicos “Os fuzis” (1964) e “A queda” (1976), teve mais uma prova de que suas experimentações, de fato, valem ouro. E troféus.

Guerra foi consagrado com o Kikito de melhor direção pelo longa “Aos pedaços” — um filme de narrativa fragmentada e pouco convencional — no Festival de Gramado, que este ano, em razão da pandemia, teve sua programação integralmente transmitida pelo Canal Brasil .

Quem acompanhou seu discurso de agradecimento pela televisão, sábado à noite, viu o cineasta, por videochamada, ser tão plácido quanto eloquente nas palavras. Com o inseparável charuto em mãos, Guerra demonstrou gratidão ao júri pelo prêmio. Mas logo em seguida veio o desabafo.

“Não posso deixar de falar da escuridão em que estamos vivendo. Um governo que dizima as populações indígenas e quilombolas. Um governo racista, que promove uma avalanche de destruição. Obrigado ao festival por abrir essa janela por onde respiramos um pouco de ar puro”, disse o diretor, em tom de revolta diante do que chama de “podridão” que sufoca o Brasil.

Ao GLOBO, por telefone, Guerra comentou sua fala.

Esse ar pútrido de que falei vai se dissipar mais rápido do que imaginamos, e essa gente vai pra lata de lixo da História. Eles sempre duram mais do que devem, porém menos do que esperamos — diz o diretor, cujo longa anterior foi “Quase memória” (2015), baseado no romance homônimo de Carlos Heitor Cony.

PUBLICIDADE Mas quem vê (e ouve) o diretor disparar petardos tão vigorosos não faz ideia do roteiro que 2020 armou para ele, exigindo muito mais energia do que o normal. O mais carioca dos realizadores moçambicanos enfrentou momentos difíceis nesta pandemia. Dono de uma perda auditiva severa, ele sofreu uma isquemia e graves infecções ao longo destes sete meses. Mudou-se com mala, cuia e quase 700 livros para a casa da filha, Janaína Diniz Guerra.

Covid ele não teve, mas de resto… E não aceita ajuda nem pra levantar, nem pra caminhar. Um fenômeno — diz Janaína, que também é uma das produtoras de “Aos pedaços”.

Política no caminho O filme, rodado no período eleitoral de 2018 e sem data de estreia prevista por conta da pandemia, conta a história de Eurico Cruz (Emílio de Mello), homem misterioso que acorda irritado com um bilhete que anuncia sua morte iminente. Ao procurar saber quem o ameaça, embaralham-se os espaços, as personagens, seus ódios, amores e suspeitas.

A produção também tem no elenco Simone Spoladore, Christiana Ubach e Julio Adrião, e levou ainda os Kikitos de melhor fotografia (Pablo Baião) e melhor som (Bernardo Uzeda). O melhor filme de Gramado, tanto pelo júri oficial quanto popular, foi “King Kong en Asunción”, de Camilo Cavalcante . O road movie ainda levou os prêmios de melhor trilha sonora (Shaman Herrera) e melhor ator (Andrade Júnior, morto em 2019).

PUBLICIDADE Janaína, que participou da cerimônia de premiação introduzindo a fala do pai, sentado ao seu lado no sofá de casa, relembra uma passagem curiosa que marcou a construção de “Aos pedaços”:

— Estávamos filmando em Cataguases, Minas Gerais, quando pensamos: ‘Meu Deus, a eleição’. Então fretamos um ônibus para que toda a equipe voltasse às suas cidades para votar.

A política, aliás, sempre atravessou a estrada profissional do pai. Provocador, o símbolo vivo do Cinema Novo enfrentou as agruras do regime militar. Em 1973, a peça musical “Calabar: O elogio da traição”, texto seu em parceria com Chico Buarque, foi sumariamente censurada.

Entre 1970 e 1976, teve de interromper sua carreira como diretor de cinema por pressão dos militares, até seu retorno com “A queda”, de 1976, premiado no Festival de Berlim dois anos depois.

Hoje, ao ser questionado sobre o momento atual da cultura no país, Guerra traça seu paralelo com o que vivenciou na ditadura.

— Não quero menosprezar o golpe de 1964, nem minimizar toda dor, tortura e mortes daquele tempo, mas hoje meu sentimento é pior — desabafa o diretor de “Os cafajestes” (1962) e “Ópera do malandro” (1985). — Há uma campanha de mentiras que consegue enganar as pessoas. Dá uma tristeza imensa.

PUBLICIDADE Se ilude, contudo, aquele que aposta no abatimento do artista diante de um cenário desolador. No final de seu discurso vitorioso, no fim de semana, ele afirmou que “nada o fará parar”. Promete que vai continuar experimentando. E errando.

— Do erro é que sai o novo. Depois, o cinema comercial incorpora os erros e conserta tudo. Mas é importante dar espaço para malucos como eu — diverte-se. —O que já foi feito não me interessa. A arte é uma aventura que eu gosto de desbravar, de buscar o novo.

No horizonte desta jornada, Guerra tem pela frente a missão de lecionar aulas virtuais e, adiante, realizar “A fúria”, última parte da trilogia composta por “Os fuzis” e “A queda”. O projeto, já aprovado em edital e roteirizado, retoma o personagem Mário, protagonista da saga, que foi preso no fim dos anos 70 e, ao sair da cadeia, já velho, quer ajustar contas com a História e com quem o traiu.

— O talento e o conhecimento não são nada sem ousadia, a coragem de ousar. O artista sempre foi um ponta de lança da sociedade, ainda mais quem trabalha com cinema, que carrega a capacidade de resistir pela coletividade —analisa. —E experimentar é minha forma de resistir. Vou continuar experimentando. É o que sei fazer.

Onde assistir ao melhor de Ruy Guerra “Os cafajestes” (1962) Primeiro longa dirigido por Guerra no Brasil, após chegar ao país em 1958. Conta a história de Jandir (Jece Valadão), um vigarista, e seu amigo Vavá (Daniel Filho). Também no elenco, Norma Bengell (1935-2013) protagonizou o primeiro nu frontal do cinema brasileiro. Longa indicado ao Urso de Ouro, no Festival de Berlim de 1962. Disponível para aluguel no Net Now.

PUBLICIDADE “Os fuzis” (1964) Considerado uma obra-prima do Cinema Novo ao abordar o caos gerado pela fome, o longa fez Guerra levar o Urso de Prata de melhor direção em Berlim. Disponível no Canal Brasil Play.

“A queda” (1976) O filme que marca a volta de Guerra à direção durante a ditadura conta a história de um operário morto por falta de segurança na obra, e a luta da família por justiça. Levou o Urso de Prata e Prêmio Especial do Júri em Berlim. Disponível no YouTube.

“Quase memória” (2018) Carlos recebe um pacote e, através da letra, nota que o remetente é seu pai, que morreu há anos. Em dúvida se deve ou não abrir o embrulho, Carlos relembra divertidas memórias que teve ao lado dele. A adaptação do romance de Carlos Heitor Cony tem em seu elenco nomes como Tony Ramos, Mariana Ximenes e João Miguel. Disponível para aluguel no Net Now.

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