A maior prova de que o Parlamento Europeu (PE) é uma instituição que quer agradar a gregos e troianos são os custos com a caravana de mais de duas mil pessoas — eurodeputados, jornalistas, funcionários e assessores parlamentares — que todos os meses se desloca de Bruxelas para Estrasburgo para participar e trabalhar nos bastidores da sessão plenária, que reúne 751 eurodeputados eleitos pelos 28 Estados-membros da União Europeia (UE).

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Visto de fora, parece bizarro que uma instituição que funciona em Bruxelas, quartel-general da UE, promova este nomadismo transumante, uma semana por mês, para uma cidade a cerca de 500 quilómetros de distância, e noutro país.

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Para entender este fenómeno, que tem direito a comboios extra e reservados à segunda-feira (ida) e à quinta-feira (volta) , temos de recuar a 1957, ano em que a Alemanha, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e Holanda assinaram o Tratado de Roma que criou a Comunidade Económica Europeia (CEE), ‘mãe’ da atual UE.

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Sala da Assembleia Plenária do Parlamento Europeu, em Estraburgo

PATRICK SEEGER/ EPA

Manter a paz na Europa era o objetivo primordial da CEE, que também queria promover o Mercado Comum entre os Estados fundadores; foi um passo determinante para estabilizar o continente numa época em que a Guerra Fria preocupava os cidadãos, a Alemanha estava dividida em dois países e a Europa ainda sentia as cicatrizes económicas e as dores da II Guerra Mundial

Houve quem defendesse que a sede da instituição deveria rodar pelas capitais dos seis Estados fundadores, mas acabou por ficar em Bruxelas — primeira cidade a acolhê-la — por depressa se ter percebido que uma sede itinerante acarretaria muitas dificuldades práticas

Dos 142 deputados aos atuais 751 A instituição ‘mãe’ do PE chamava-se Assembleia Parlamentar Europeia, tinha 142 deputados e reuniu pela primeira vez a 19 de março de 1958, em Estrasburgo — cidade alsaciana que ora foi território francês, ora alemão, e cuja vida económica continua a depender da vinda dos eurodeputados e restante equipa

Muito do trabalho dos atuais eurodeputados é feito em Bruxelas, fora da sessão plenária, nas 20 comissões e duas subcomissões do PE. É nelas (Segurança e Defesa, Direitos Humanos, Ambiente, Transportes, Igualdade de Género, etc.) que se discute e prepara legislação com impacto direto na vida de todos os residentes nos 28 Estados-membros da UE

GERARD CERLES / AFP / Getty Images

As sucessivas reformas dos tratados que regem as instituições europeias reforçaram os poderes do PE (que é agora colegislador) e fazem com que as eleições europeias que se realizam entre 23 e 26 deste mês ( o Reino Unido e a Holanda inauguram o sufrágio no dia 23, Portugal vota a 26 ) sejam consideradas as mais importantes da história do PE

A única certeza que temos é que os 751 eurodeputados que saírem deste sufrágio terão poderes para decidir e influenciar a vida de (quase) 427 milhões de europeus em idade de votar (o PE não forneceu ao Expresso o número de pessoas recenseadas nos 28 países)

14 países ganham deputados se o ‘Brexit’ chegar a acontecer Se não houver acordo sobre o ‘Brexit’ até 22 de maio, os britânicos elegerão o seu contingente de 73 eurodeputados, que só tomarão posse se continuar a não haver acordo sobre a saída da UE até 2 de julho, data de tomada de posse do novo PE

Caso sejam eleitos e o Reino Unido abandone a UE em junho, 27 destes lugares serão redistribuídos pelos países mais penalizados na relação entre número de habitantes e eurodeputados eleitos, sendo os restantes 46 eliminados

Este sistema foi previamente contratualizado pelos 27 países que permanecem na UE, sem que nenhum perca deputados, e prevê que 13 dos atuais 28 Estados-membros mantenham o número de eurodeputados – Portugal está neste grupo – e que 14 países ganhem deputados

A Áustria, Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Estónia, Finlândia, Polónia, Roménia e Suécia ganham um deputado cada. Já a Irlanda terá direito a mais dois, enquanto a Itália e Holanda poderão ganhar três deputados. Os restantes dez serão repartidos em partes iguais pela Espanha e França

Primeiros eurodeputados não foram eleitos Ao contrário do que acontece hoje, os primeiros eurodeputados foram nomeados pelos parlamentos dos seus países de origem. As primeiras eleições europeias realizaram-se em junho de 1979, quando a CEE tinha nove Estados-membros

Portugal elegeu pela primeira vez 24 eurodeputados em julho de 1987, mas nomeou os primeiros no início de 1986. Cada um dos cincos partidos que então tinha assento na Assembleia da República designou os seus representantes ao Parlamento Europeu, na proporção do número de deputados que tinha na A.R

Cinco partidos (PCP, PS, PSD, CDS e PRD) portugueses com assento na Assembleia da República nomearam 24 representantes para o Parlamento Europeu. Foram os primeiros eurodeputados portugueses. A Capital, 13 de janeiro de 1986

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Estes 24 homens – eram todos homens – repartiam-se desta forma: o CDS enviou dois deputados para Estrasburgo, o PCP três, e o PRD (Partido Renovador Democrático – já extinto) quatro eurodeputados. O PS, maior partido da oposição, designou seis deputados e o PSD, que estava no Governo [primeiro Executivo de Cavaco Silva], enviou nove homens para Estrasburgo

A assembleia parlamentar que reuniu pela primeira vez há 61 anos, com representantes de seis país, mudou de nome em 1962, passando a ser conhecida por Parlamento Europeu. Entretanto, cresceu e ‘engordou’ bastante. No edifício de Bruxelas trabalham hoje cerca de 10 mil pessoas, número que inclui os assessores dos 751 deputados. Cada europeu — mais de 500 milhões se contarmos crianças e adolescentes sem idade para votar — contribui com €3,50 por ano para o orçamento do PE, segundo dados da instituição

‘Eurobabel’ tem 24 línguas de trabalho Há 60 anos , os 142 deputados que participavam na assembleia parlamentar, representavam seis Estados-membros da CEE [Alemanha, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e Holanda] e cinco línguas diferentes

Atualmente, o inglês e francês são as línguas de trabalho mais utilizadas, mas a UE e o Parlamento Europeu respeitam o multilinguismo que, além de ser parte integrante da identidade de cada Estado, reflete uma imensa diversidade cultural

As normas preveem “serviços de interpretação para todas as reuniões multilingues organizadas pelos órgãos oficiais”, para transmitir fielmente e em tempo real, nas 24 línguas oficiais da UE, os discursos dos deputados

A Direção-Geral da Logística e da Interpretação para Conferências do Parlamento Europeu emprega 270 intérpretes; sempre que necessário recorre-se a um banco de 1500 intérpretes externos acreditados. Este trabalho é apoiado por uma equipa de 75 juristas-linguistas

Aproximar-se de cerca de 500 milhões de europeus é um dos objetivos desta instituição. O PE orçamentou 36 milhões de euros para gastar em material de divulgação institucional, incluindo apelo ao voto, em 2018/19. Dividido por 28 países, dá menos de €1 (€0,0843) por pessoa em idade de votar, que foi e é gasto em ações feitas em 24 línguas