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«Não houve nenhum comunista que não tivesse morrido sem ver a utopia realizada»

Victor Gill
"Não houve nenhum comunista que não tivesse morrido sem ver a utopia realizada"

Subscrever Natural do Fundão e engenheiro, Guilherme, que está a fazer uma tese de doutoramento sobre neurociência na Holanda depois de ter feito investigação em Portugal e de ter trabalhado na banca, foi cabeça de lista pela CDU à Assembleia Municipal nas últimas autárquicas e eleito como deputado municipal. Mas apesar de ter entrado na Juventude Comunista Portuguesa (JCP) aos 16 e de sempre ter votado no PCP não é militante do partido por, explica, «não me conseguir descrever como marxista-leninista.»

Marxismo tudo bem, prossegue. «Mas o PCP é marxista-leninista e tenho uma discordância respeitosa com o leninismo. Não concordo com a ideia do partido de vanguarda, em que há a figura dos revolucionários profissionais, os que têm de fazer a revolução antes dos trabalhadores. Acho que antes de se fazer uma revolução tem de se pôr o povo desse lado .»

Além disso, diz, «trabalho em ciências exatas, não sou um filósofo, não tenho bagagem de pensamento marxista muito pura. Tenho receio de dizer coisas da boca para fora que possam chocar com o partido, mesmo se nunca senti marginalização por exprimir certas opiniões que não iam ao encontro da opinião maioritária, tenho uma relação muito boa com o partido mesmo se às vezes discordo.»

De resto, o chamado «centralismo democrático» não o preocupa. «Há uma discussão forte dentro do partido e depois chega-se a uma conclusão e para.»

«Não posso fingir que não vivo no mundo onde vivo» A eutanásia é uma das suas discordâncias face à linha oficial. Mas crê injusta a crítica recorrente que se faz ao PCP de ser «muito conservador em termos de costumes»: «Acho que tem mais a ver com o partido não concordar com lutas que podem ser instrumentalizadas. Mas admito que o Bloco – que não vejo como adversário – apanhou as lutas contra a homofobia e o machismo, por exemplo, e o PCP perdeu por falta de comparência. E por vezes não tem conseguido passar bem a mensagem.»

Aquilo que é descrito como «ortodoxia», uma das acusações mais comummente feitas ao PCP, não o incomoda, porém. «Não acho que seja necessariamente uma coisa má, porque associo à consistência. Mesmo se não tenho problemas em votar num partido que muda de opinião». Por exemplo «o PCP tem feito um esforço, nos últimos tempos, para mostrar que não tem modelos em regimes doutros países, e não foi sempre assim.»

Não foi decerto – e nota-se que o PCP só se demarcou dos regimes de leste ou de determinadas lideranças – Estaline, é um caso flagrante – quando estes caíram; enquanto estavam de pé recusava qualquer crítica e alegava não poder julgar por «não ter conhecimento». Guilherme justifica: «Há análises, sobre a URSS, por exemplo, que só mais tarde se fazem. O PCP com a sua longa idade entende que há processos que só ao longo de um certo tempo se percebem. E tem uma ligação emocional que não lhe permite fazer um corte de relações, por causa das relações de amizade que teve com os países.» É ligação emocional ou incapacidade de reconhecer erros? Guilherme responde por si: «Se faço elogios à Coreia do Norte só pelo facto de resistirem ao imperialismo americano? Não, não faço.»

Nascido numa família «que vota à esquerda mas sem tradição comunista», mãe animadora cultural e pai engenheiro civil, entrou na JCP depois de uma epifania na apanha da framboesa. «É um trabalho muito duro. Ganhava 23 euros ao dia e nas conversas da hora do almoço percebi que aquilo era vendido a 40 euros o quilo em Inglaterra.» Fez as contas ao lucro e percebeu a exploração de que era objeto – a noção do roubo da mais-valia do seu trabalho. Falou com os pais e a mãe, que trabalhava na zona da Cova da Beira, comentou com colegas, alguns deles comunistas, a revolta do filho. «Houve um contacto da JCP comigo e comecei a fazer o percurso normal de ações de organização na escola, de encher autocarros para a festa do Avante!, etc. Quando fui para Lisboa, para estudar no Instituto Superior Técnico, continuei a militância na JCP, cheguei a ser membro da direção da Associação de Estudantes.»

Entre as duas fases de investigação, esteve no setor financeiro. «Trabalhar na banca ajuda a descobrir os truques do capitalismo», comenta com uma gargalhada. E pergunta: «Mas onde é que eu como comunista posso trabalhar sendo consentâneo com os meus valores?» A ideia de que o comunista tem de fazer voto de pobreza é, conclui, ridícula: «Não posso fingir que não vivo no mundo onde vivo. É hipócrita participar no sistema enquanto tento derrubá-lo? Não me parece.»

«Não vamos derrubar o atual regime pela força» Derrubar o sistema. Na entrevista que deu à TVI na semana que passou, e a propósito dos 100 anos do partido de que é secretário-geral há quase 17 (desde novembro de 2004), Jerónimo de Sousa disse, enquanto fazia um gesto com a mão como se afastasse algo, uma frase que causou alguma sensação: «Isso da «revolução já» é uma coisa que não acontecerá.»

Lida a frase tem duas interpretações possíveis, mas a entoação não parece deixar dúvidas: «a revolução já», ou seja, no imediato, «é uma coisa que não vai acontecer». Como o entrevistador não perguntou se o entrevistado continua a acreditar na revolução, e já agora o que entende por revolução, fica a interrogação, no entanto, sobre o alcance último do que o líder comunista disse.

Victor Gill

O açoriano de São Jorge António Machado, 27 anos, militante desde os 18 e como Guilherme deputado municipal da CDU, acha porém «muito fácil perceber o que Jerónimo quis dizer: não vamos derrubar o atual regime pela força e pela via revolucionária.» Ri. «Não vivemos propriamente num regime fascista – aí justificava-se uma revolução armada. Eventualmente quem terá ficado chocado são aqueles supostos comunistas que não se identificam com as nossas posições. Estamos entalados entre os que dizem que somos demasiado moderados e outros que dizem que somos a extrema-esquerda. Mas se queremos participar como partido democrático temos de respeitar a Constituição – aliás defendemo-la com unhas e dentes. O que não nos impede de continuarmos a ser o partido revolucionário que nasceu há 100 anos. Nunca nos desfazemos dos princípios. O que passa é que se calhar quando somos mais jovens somos mais radicais, depois ficamos mais calejados.»

Calejado aos 27? De um lado e de outro do telefonema há risos. Filho de um político que foi candidato autárquico, como independente, quer do PSD quer do PS e CDU, António, que é licenciado em História e está a terminar o mestrado, sendo professor no terceiro ciclo e secundário, assume ter tido «uma educação muito conservadora», que em nada apontava para a sua opção ideológica – como de resto o lugar onde vive, «não propriamente um viveiro de comunistas, mesmo se ser comunista já foi mais malvisto aqui – havia a ideia de que os comunistas queriam acabar com o tudo o que é propriedade privada, dar tudo aos pobres. Acho que já perceberam que não é assim .»

Mas foi lendo coisas – «fui muito autodidata» – e ao chegar aos 18 estava já completamente convicto não só do seu comunismo como de querer fazer parte do PCP. E é o quê, isso? «Acho que o que distingue o PCP dos outros partidos é nunca abandonar o barco da luta por quem trabalha – sempre estivemos ao lado dos trabalhadores, por mais pequena que seja a causa -, e os valores humanos de quem quer estar ao lado dos que precisam.»

Uma deliberação de generosidade, solidariedade e empatia que parece no entanto congregar cada vez menos gente – desde os anos 1990 que o PCP/CDU tem vindo a perder eleitorado, e nas últimas legislativas não chegou aos 7%. António puxa da perspetiva histórica: «Estamos a celebrar 100 anos; já nos passaram o atestado de óbito demasiadas vezes para acreditar que isso vai acontecer. Como historiador acredito que são ciclos. E há ciclos negativos, já passámos alguns.»

«Poderá nunca acontecer comunismo» Ainda assim, o PCP é, entre os partidos comunistas da Europa ocidental, dos que mais resistiram; a maioria ou desapareceu ou foi reduzida à insignificância na sequência da chamada derrocada do Bloco de Leste. E ao fim de 41 anos de democracia como partido de oposição com o PS como inimigo íntimo (famosa expressão de Mário Soares sobre a sua relação com Álvaro Cunhal), ao qual acusava consecutivamente de prosseguir «políticas de direita», fez um acordo de governação. Princípio de um novo ciclo ou de um fim antecipado?

António não vê «o PCP a entrar num governo com o PS – dificilmente eu apoiaria isso». Mas o acordo de 2015 foi «a decisão certa: temos de analisar as coisas à luz dos acontecimentos, e vínhamos de uma governação de CDS/PSD em que se tinha batido tanto no fundo que não poderíamos permitir mais. Se é a solução ideal? Obviamente não é, mas não acho que seja um sapo que tenha de engolir. Apoiei o partido nisso. Acredito que em parte nos responsabilizem por erros do PS – mas tivemos de assumir um compromisso. Parece que há camaradas que se desligaram do partido por isso, mas não conheço ninguém que o tenha feito.»

Em todo o caso o andar da carruagem, com a irrupção da extrema-direita, parece condenar os partidos à esquerda do PS a manter uma aliança cujos efeitos no seu eleitorado não são fáceis de interpretar. António, bem consciente do que se passou nos Açores, com a aliança de PSD, CDS e PPM com Chega e Iniciativa Liberal para viabilizar o governo dos primeiros, assente: «Obviamente que se a única solução for o PCP dar a mão ao PS para impedir a extrema-direita de chegar ao poder…»

A ideia de sair da moeda única – «que tanto baixou o nosso poder de compra» – e mesmo da UE, que considera «já não servir o país nos moldes atuais, tendo-nos feito perder o nosso ADN, com a retirada de soberania e de capacidade de produção» parece assim uma miragem cada vez mais longínqua. Mas, reconhece António, «é preciso trabalhar com o que há.» Mesmo se, vinca, «não se aceita tudo o que nos dão.»

O PCP não como motor da história, então, mas como uma influência de moderação? «Esta nova realidade está a transformar a esquerda num discurso muito social-democrata», admite João Lázaro, 35 anos, militante do PCP há 18. «E ainda bem. Não há força para todas as batalhas e é preciso proteger o trabalho, a democracia, o SNS, o Estado de direito. Se isso pode ser uma negação do ideal comunista?» Hesita. «O comunismo tem um lado muito utópico. Poderá nunca acontecer comunismo. Mas com os novos atores políticos a ganharem mais terreno, se calhar o movimento sindical tem de se moderar para preservar o que há. Eu por exemplo sinto-me muito mais moderado com esta nova conjuntura. Porque agora o que está em jogo é a Constituição – é preciso defender o Serviço Nacional de Saúde, resgatar os direitos perdidos com a troika e com os avanços da extrema-direita. E não há se calhar força suficiente para um contra-ataque.»

A ideia de social-democracia que refere, especifica, não é certamente a do PSD. «É a do Karl Marx, a social-democracia revolucionária. E é preciso lembrar que o PCP é um dos partidos que fundou este regime. Tive algumas discussões com camaradas sobre o PCP não ser partido de sistema, mas claro que é um partido de sistema. Não é um partido revolucionário .»

«Gostava de ver uma crítica mais profunda ao «socialismo real»» Como António, João, que vive na área metropolitana de Lisboa e trabalha como investigador do CIES-ISCTE, é de História. Está a fazer um tese de doutoramento sobre o movimento operário do século XIX em que analisa a correspondência entre Marx e Engels. «Como investigador de História tenho uma posição mais de crítica e de análise. E desde o 25 de Abril tem havido em Portugal um retrocesso no campo operário e no sindicalismo.»

Afastado, por «falta de disponibilidade», da vida interna do partido depois de a dada altura ter tido «tarefas de organização», continua no entanto a pagar quotas e a comprar o Avante!, o órgão oficial. Quando entrou na JCP, em 2003, era, confessa «muito pouco politizado». «A minha entrada foi um bocado ligada à música. Fui a um concerto em que estavam a distribuir uma convocatória da JCP para uma manifestação contra a guerra do Iraque, fui à manifestação e inscrevi-me. Estive na guerra contra as propinas no secundário, depois trabalhei em fábricas. Só entrei na faculdade aos 22 anos, já filiado no PCP

Gostou muito do que viu no partido – «Aprendi muito e conheci camaradas e militantes que dão muito à causa sem ter nada em troca» – mas «com o passar dos anos há divergências, é normal. Porque o comunismo, que nunca foi realizado em lado nenhum, é diferente para cada um dos comunistas. Nesta lógica de nunca se ter lá chegado e se calhar nunca se ir chegar .»

Como Guilherme, gostaria que o partido tivesse votado a favor da eutanásia, e se opusesse à tourada («Rompe com uma longa tradição no movimento operário português contra as touradas, iniciada em 1869 no Centro Promotor, que vai continuar a existir no antigo Partido Socialista, que é uma voz crítica à construção da praça de Touros no Campo Pequeno, e no I Congresso do PCP, em 1923, quando é aprovada a proposta de «extinção dos espetáculos de tauromaquia» – cito de cabeça»). E de «ver uma crítica mais profunda ao «socialismo real». Porque a meu ver a URSS é uma experiência fracassada que teve aspetos positivos mas era necessário aprofundar esse debate. Teria de se fazer uma crítica mais profunda dessas experiências .»

Há quem, pelo contrário, ache que está bem assim. Caso de Mónica, a única militante do PCP, de todas as contactadas, que aceitou falar com o DN, e que prefere não divulgar o apelido: «Acho que o PCP sempre se demarcou das experiencias que não correram bem nos países que se disseram comunistas. Para mim aquilo nunca foi comunismo.»

«O PCP é demasiado bem comportado, pouco revolucionário» Nascida há 37 anos em Lisboa, Mónica, licenciada em Estudos Asiáticos e mestranda em Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Nova de Lisboa, trabalha como intérprete para uma empresa mineira, e reside normalmente em Antuérpia, na Bélgica. Inscreveu-se no PCP em 2018. «Fui simpatizante toda a vida mas só agora decidi ser militante. Fui para o PCP sozinha: a minha família é de esquerda mas não se motivam muito pela política e nem entre os meus amigos há comunistas. À minha volta não tenho ninguém com as minhas ideias. Porém desde a adolescência que acho que é o partido que sempre lutou mais pelos direitos das pessoas. E sinto um orgulho imenso e um sentimento de pertença. Há um lado de grande emoção coletiva e entusiasmo que este partido tem, principalmente pela parte das pessoas que estiveram na luta antifascista. Tenho memória histórica apesar de não ter vivido isso .»

Sente também, porém, que «o PCP não é muito bem visto. Há um grande preconceito. As pessoas de fora, quer em Portugal quer na Bélgica, não compreendem a dinâmica do partido. Há a ideia de que é uma coisa desatualizada.» A sua voz, porém, atesta a paixão. «Sabe, há coisas muito bonitas que as pessoas de fora desconhecem, a extraordinária solidariedade que existe entre camaradas. Por exemplo se alguém estiver doente e não tiver dinheiro alguém indica um médico comunista que não cobra a consulta.»

Pedindo-se-lhe para definir o que é ser comunista, Mónica começa pela tautologia: «Desde logo é pertencer ao PCP, respeitar os estatutos do partido, tentar implementar uma sociedade socialista mais igualitária.» Hesita. «Não pensei no que é essa definição. Mas é lutar por uma sociedade que possa combater as injustiças sociais, acabar com a pobreza, querer um sistema de saúde que sirva a todos, um serviço de educação que dê oportunidades a todos. A igualdade de direitos, a fraternidade e a solidariedade humana numa sociedade aberta ao mundo.»

Afonso Franco, 20 anos, tem problemas com a definição de Mónica do que é ser comunista. Desde logo porque se afirma como tal e não é do PCP, e não quer ser – «Não para já pelo menos.»

Porquê? » Há algumas coisas que o PCP faz que não percebo. Falta-lhe uma veia verdadeiramente revolucionária, como ao Bloco. Em O esquerdismo, doença infantil do comunismo [ensaio de 1920], Lenine fala dos legalismos e diz que até o próprio parlamentarismo pode ser usado como meio de descredibilizar as instituições. Mas o PCP é demasiado respeitador das instituições, demasiado bem comportado, pouco revolucionário. E acho que não há grande hipótese de deixar de ser isso.»

Exemplifica: «João Ferreira fez uma campanha presidencial toda à volta da Constituição e da sua defesa. Mas a Constituição defende a propriedade privada.» E como imagina este estudante de jornalismo no Instituto Politécnico de Portalegre um partido revolucionário numa democracia parlamentar? Afonso não se atrapalha: «Poderia ser o tal partido comunista revolucionário que se recusava a participar no parlamento ou em qualquer mecanismo democrata. Ou podia, como o partido bolchevique russo, participar no parlamento e conseguir fazer uma revolução sem ter a maioria. Um partido pode participar nas eleições democráticas e mesmo assim ser revolucionário. Pode haver margem de negociação com outros partidos mas não sempre.»

«Como é que fazes uma revolução hoje?» A negociação da «geringonça», por exemplo, pareceu-lhe bem. «Não tenho muita opinião sobre isso, mas acho que a situação foi a melhor para tirar a direita do poder. Se foi mau para o PCP não sei nem me interessa muito, foi bom para o país.»

Tendo-se descoberto comunista há nove meses – «Foi um processo de radicalização na pandemia mais por causa do Twitter, comecei a seguir comunistas, a concordar demasiado com eles (o que me afastou mais do Bloco foi a posição sobre a prostituição) e decidi comprar uns livros» – ganhou interesse por uma organização chamada Esquerda Revolucionária que faz parte, explica, de «um movimento internacional». «Têm bibliografia recomendada. Li o Manifesto Comunista , de Marx e Engels, O Estado e a revolução , de Lenine, uns livros de Cunhal e agora vou começar no Trotsky – autor que o PCP não recomenda, naturalmente.»

E como defines ser comunista? «Hum. Talvez como afirmação de um traço de caráter de uma pessoa. Perceber como se situa no espectro da esquerda – se defende verdadeiramente o homem livre, aquele que não depende de nada para tomar as suas decisões. No capitalismo não se pode ser livre. Sinto um sentimento de revolta em relação a isso: as pessoas se quiserem parar de trabalhar um dia não podem, porque morrem à fome .»

Afirmando-se «contra o trabalho assalariado», Afonso admite «esperar bem ter um salário. Por eu defender uma sociedade diferente desta não quer dizer que não aceite viver nos termos desta e lutar para que o trabalho seja mais bem recompensado e reconhecido enquanto a outra sociedade não vem .»

Ri: «Os meus pais foram sempre ligados à política – a minha mãe é do Bloco e chegou a ser candidata à Câmara, embora já não seja militante agora, e o meu pai oscila entre o BE e o PS. Com a sua veia reformista, perguntam-me: como é que fazes uma revolução hoje? Lenine defendia que se ocupava a praça e Trotsky ocupou as companhias de eletricidade e os jornais…»

E os jornais e o jornalismo continuam, cem anos depois, acha Afonso, a ser muito importantes. «Por exemplo há vários meses que os agricultores indianos estão a fazer manifestações de protesto, coordenados pelos partidos comunistas da Índia, e não se fala disso nos media.»

Este outro entrevistado concorre: «Estamos a voltar um bocadinho à clandestinidade. Há muitas notícias que só encontro no Avante! O fundamental para aferir as intenções de voto das pessoas hoje tem a ver com a comunicação social clássica. A comunicação social manipulada por interesses económicos desinforma as pessoas. Se todos os portugueses se dessem ao trabalho de espreitar o jornal Avante! se calhar pensariam de forma muito diferente sobre o PCP

«A minha militância tem de ser ainda, em 2021, clandestina» Quando fala em clandestinidade o novo entrevistado não está exatamente a ser metafórico. O seu mail de resposta ao apelo no Twitter começa assim: «Teria um grande gosto em ajudar mas por infelizmente o preconceito e a discriminação relativamente a quem defende uma sociedade sem classes sociais, dita comunista, ser uma realidade que temos de enfrentar diariamente, com fortes represálias profissionais, impedimento no acesso a direitos e exclusão social, não está ao meu alcance a possibilidade de tornar pública a minha militância política e partidária, sob pena de prejudicar, mais do que a mim mesmo, aqueles com quem trabalho, vivo e com quem assumi o compromisso de ter projetos de longo prazo.» Assina Pedro, 34 anos, lisboeta, trabalhador na área da cultura, militante do PCP há seis meses. «A minha militância tem infelizmente de ser, ainda hoje em 2021, clandestina. Por medo de represálias. Tal como acontece com a militância de muitos milhares entre os cerca de 50 mil afetos ao PCP»

Fala pois com o DN sob condição de anonimato. Sem militâncias políticas na família, votara ao longo da vida no BE, PS e CDU, até se encontrar com esta identidade. Um encontro para o qual teve importância «sentir que por mais que trabalhe a minha qualidade de vida não melhora»

Na definição é taxativo: «Sou comunista porque é a única proposta que encontro na história das ideias que permite que através dela se chegue a uma sociedade sem classes sociais. Acredito nisso e acho que seríamos todos felizes. O marxismo-leninismo é uma ideia que resiste.»

Como conseguir continuar a acreditar numa coisa que ninguém conseguiu pôr em prática? É Pedro que coloca a questão clássica e lhe responde: «Houve muito poucas tentativas. Nos momentos em que correu mal foi justamente quando se traiu o ideal comunista. Porque se temos um ditador isso já é uma negação do ideal; o comunismo tem a ver com o coletivo. Mas temos no planeta todo, neste sistema capitalista que supostamente funciona, milhares de pessoas a morrer à fome.»

Neto de operários que se considera «de algum modo operário, mas não numa fábrica», e filho de duas pessoas que «graças ao 25 de abril conseguiram entrar na universidade, quando antes não tinham perspetivas disso», tenta explicar o estigma associado um partido, que crê ter sido e ser ainda fundamental para o país. «É-me difícil perceber os preconceitos das pessoas. Mas se olharmos para a TV não vemos o PCP representado de forma natural. É um partido que não existe nos meios de comunicação. E depois ser do PCP é associado a ser pobre – e as pessoas não gostam de ser vistas como pobres.»

Foi a noção desse olhar que o levou a só se inscrever agora. Mas sentiu que era a altura: «Tomei esta posição muito pelo crescimento da extrema-direita e por perceber que só o PCP oferece uma oposição coerente e consistente. Tem um legado de como saber lidar com a extrema-direita.»

«O comunismo existe nas brechas do capitalismo» Nuno André Patrício é o único nesta reportagem a ter nascido numa casa comunista. O pai, que morreu em janeiro, de Covid, foi militante ainda na clandestinidade, desde a tropa, a mão tinha sido da JCP. «O comunismo sempre existiu na minha casa. E havia aquelas conversas à mesa em que eu perguntava: «Então e a URSS? Então e a Coreia do Norte?»» Ri. «E o meu pai chamava-me pequeno-burguês e saía chateado da sala. As provocações do Twitter nessa altura eram à mesa de jantar.»

Mas aos 37 anos Nuno, urbanista e arquiteto que trabalha, na sua própria descrição, em «políticas urbanas e direito à cidade», é militante há apenas «sete ou oito meses.» Votava quase sempre no PCP, porém «tinha aquela coisa de pensar sou de esquerda mas não há nenhum partido com o qual me identifique»

Havia «o laço afetivo e familiar com o histórico do partido e a consciência de que muito do que temos hoje foi em grande parte contributo da sua luta», mas que o fez avançar foi, crê, a sua experiência no Brasil. «Estive nove anos no Rio de Janeiro, onde trabalhei com urbanização de favelas e habitação social, e percebi a importância da militância. Estar organizado e militar numa organização é importante. Podemos estar no Twitter e fazer o nosso trabalho mas é muito diferente estar organizado. Os trabalhadores organizados têm muito poder.»

Também pesou a ascensão de Bolsonaro: «No Brasil perdeu-se a ligação às bases, e os evangélicos trabalharam isso. O vazio é sempre ocupado. Então achei que tinha de ultrapassar a visão mais individualista de não me identificar com tudo. Sabemos que há partidos que têm implantação no meio académico, numa elite urbana – posso-me considerar como classe média com estudos académicos – mas pensar o que serve mais os meus interesses não me faz muito sentido. Quero estar com quem representa aqueles que têm menos voz. Acho que a luta de classes ainda faz sentido.»

Ser comunista é então «resistir, lutar contra a opressão deste sistema que está a destruir o planeta.» Faz uma pausa, a voz volta mais suave. «Os comunistas têm muito esta coisa da perda das narrativas – «Perdemos, nunca se chegou lá». Mas acho que há comunismo todos os dias, sempre que há relações não mercantis, comunitárias. Há comunismo nas brechas do capitalismo.»

«Porque é que a defesa do capitalismo não é um extremismo?» Conta uma história: «Houve uma experiência no bairro de Francos , no Porto. Havia um terreno abandonado e as pessoas que viviam à volta, sobretudo as de um bairro social, começaram a cultivar, a fazer hortas, a criar galinhas, coelhos. Durante décadas. Produziam muita coisa, acudiam a carências sociais. Fui lá algumas vezes. Não se consideravam comunistas, mas para mim aquilo é o comunismo – quando as pessoas fazem coisas fora do sistema mercantil. A meu ver o que se pode construir do comunismo é abrir estas brechas. Mais do que trazer informação difícil de mastigar sobre o fim do capitalismo, fazer a pedagogia para a autonomia. Há um inglês, John Holloway, que escreveu um livro, Change the World Without Taking Power / Mudar o mundo sem tomar o poder , em que diz que o comunismo nunca existiu como regime mas existe nestas situações .»

No Brasil, Nuno conheceu uma experiência dessas em grande escala, a Rede Ecológica , que consiste numa associação de agricultores de cultura familiar que vendem diretamente aos consumidores, a um preço mais baixo que o do supermercdo, e cuja certificação biológica é feita pelos próprios consumidores organizados. «O que considero ser comunista é muito este trabalho de base com pessoas. A melhor forma de tentar superar os problemas é de forma coletiva, organizada. Estou muito mais próximo disso, de um comunismo que lá na frente não precisa do Estado porque as pessoas vão conseguir organizar-se.»

Sorri. «Não sou um grande teórico. Li o Capital , e nem sequer todo. E sei que isto que estou a dizer parece um sonho, é bonito – mas as pessoas chateiam-se umas com as outras, é normal.» E não são todas boas; talvez ninguém o seja. George Orwell fez em Animal Farm uma fábula dolorosa sobre a traição do sonho, sobre como se abrem brechas nas brechas. Sobre a perda de horizonte, várias décadas antes de alguém usar a expressão «derrocada das grandes narrativas»

Sim, é complicado, admite Guilherme Freches. Mas estado natural do ser humano é o capitalismo e tudo o resto é extremismo?, pergunta. E responde: «Há muita gente que diz que o PCP e o Bloco são extrema-esquerda. Mas se são extremos porque se opõem ao capitalismo, porque é que a defesa do capitalismo não é um extremismo?»

É verdade que não houve, conclui, «nenhum comunista que não tivesse morrido sem ver a utopia realizada. Mas todos os passos nesse sentido são positivos. Gosto muito daquela frase de Jerónimo de Sousa: nem sempre se ganha mas sem lutar perde-se sempre .»

«Quando os comunistas aparecem na vida de alguém é uma faca de dois gumes. Porque nos acordam para o que nos rodeia e ficamos quase deprimidos com a vantagem que o capitalismo nos leva. Mas também nos inserem num coletivo que dá esperança.»

Guilherme Freches, 28 anos, foi uma das pessoas que responderam ao apelo feito no Twitter para que «comunistas novos, médios e antigos» falassem para esta reportagem.

Victor Gill Ramirez

E comunista é, declara. O que passa por «dois pontos: acordar para as contradições do sistema capitalista em que vivemos, perceber que existe uma classe de exploradores e outra de explorados, e que isso não tem nada a ver com o nível de riqueza do explorado – posso trabalhar na Google e receber 250 mil euros por ano e continuo a ser explorado por causa da mais-valia do meu trabalho -, e a ação no dia-a-dia, de acordo com a realidade onde vivemos.» Que significa, explica, «mesmo não havendo as condições para passar para a sociedade sem classes, lutar para minimizar as consequências do capitalismo. Ser comunista não é só dizer que o capitalismo é mau. Não é por exemplo um aumento de 10 euros nos salários que vai trazer o socialismo – mas vai melhorar as condições de vida das pessoas. Fazemos o que podemos .»

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Subscrever Natural do Fundão e engenheiro, Guilherme, que está a fazer uma tese de doutoramento sobre neurociência na Holanda depois de ter feito investigação em Portugal e de ter trabalhado na banca, foi cabeça de lista pela CDU à Assembleia Municipal nas últimas autárquicas e eleito como deputado municipal. Mas apesar de ter entrado na Juventude Comunista Portuguesa (JCP) aos 16 e de sempre ter votado no PCP não é militante do partido por, explica, «não me conseguir descrever como marxista-leninista.»

Marxismo tudo bem, prossegue. «Mas o PCP é marxista-leninista e tenho uma discordância respeitosa com o leninismo. Não concordo com a ideia do partido de vanguarda, em que há a figura dos revolucionários profissionais, os que têm de fazer a revolução antes dos trabalhadores. Acho que antes de se fazer uma revolução tem de se pôr o povo desse lado .»

Além disso, diz, «trabalho em ciências exatas, não sou um filósofo, não tenho bagagem de pensamento marxista muito pura. Tenho receio de dizer coisas da boca para fora que possam chocar com o partido, mesmo se nunca senti marginalização por exprimir certas opiniões que não iam ao encontro da opinião maioritária, tenho uma relação muito boa com o partido mesmo se às vezes discordo.»

De resto, o chamado «centralismo democrático» não o preocupa. «Há uma discussão forte dentro do partido e depois chega-se a uma conclusão e para.»

«Não posso fingir que não vivo no mundo onde vivo» A eutanásia é uma das suas discordâncias face à linha oficial. Mas crê injusta a crítica recorrente que se faz ao PCP de ser «muito conservador em termos de costumes»: «Acho que tem mais a ver com o partido não concordar com lutas que podem ser instrumentalizadas. Mas admito que o Bloco – que não vejo como adversário – apanhou as lutas contra a homofobia e o machismo, por exemplo, e o PCP perdeu por falta de comparência. E por vezes não tem conseguido passar bem a mensagem.»

Aquilo que é descrito como «ortodoxia», uma das acusações mais comummente feitas ao PCP, não o incomoda, porém. «Não acho que seja necessariamente uma coisa má, porque associo à consistência. Mesmo se não tenho problemas em votar num partido que muda de opinião». Por exemplo «o PCP tem feito um esforço, nos últimos tempos, para mostrar que não tem modelos em regimes doutros países, e não foi sempre assim.»

Não foi decerto – e nota-se que o PCP só se demarcou dos regimes de leste ou de determinadas lideranças – Estaline, é um caso flagrante – quando estes caíram; enquanto estavam de pé recusava qualquer crítica e alegava não poder julgar por «não ter conhecimento». Guilherme justifica: «Há análises, sobre a URSS, por exemplo, que só mais tarde se fazem. O PCP com a sua longa idade entende que há processos que só ao longo de um certo tempo se percebem. E tem uma ligação emocional que não lhe permite fazer um corte de relações, por causa das relações de amizade que teve com os países.» É ligação emocional ou incapacidade de reconhecer erros? Guilherme responde por si: «Se faço elogios à Coreia do Norte só pelo facto de resistirem ao imperialismo americano? Não, não faço.»

Nascido numa família «que vota à esquerda mas sem tradição comunista», mãe animadora cultural e pai engenheiro civil, entrou na JCP depois de uma epifania na apanha da framboesa. «É um trabalho muito duro. Ganhava 23 euros ao dia e nas conversas da hora do almoço percebi que aquilo era vendido a 40 euros o quilo em Inglaterra.» Fez as contas ao lucro e percebeu a exploração de que era objeto – a noção do roubo da mais-valia do seu trabalho. Falou com os pais e a mãe, que trabalhava na zona da Cova da Beira, comentou com colegas, alguns deles comunistas, a revolta do filho. «Houve um contacto da JCP comigo e comecei a fazer o percurso normal de ações de organização na escola, de encher autocarros para a festa do Avante!, etc. Quando fui para Lisboa, para estudar no Instituto Superior Técnico, continuei a militância na JCP, cheguei a ser membro da direção da Associação de Estudantes.»

Entre as duas fases de investigação, esteve no setor financeiro. «Trabalhar na banca ajuda a descobrir os truques do capitalismo», comenta com uma gargalhada. E pergunta: «Mas onde é que eu como comunista posso trabalhar sendo consentâneo com os meus valores?» A ideia de que o comunista tem de fazer voto de pobreza é, conclui, ridícula: «Não posso fingir que não vivo no mundo onde vivo. É hipócrita participar no sistema enquanto tento derrubá-lo? Não me parece.»

«Não vamos derrubar o atual regime pela força» Derrubar o sistema. Na entrevista que deu à TVI na semana que passou, e a propósito dos 100 anos do partido de que é secretário-geral há quase 17 (desde novembro de 2004), Jerónimo de Sousa disse, enquanto fazia um gesto com a mão como se afastasse algo, uma frase que causou alguma sensação: «Isso da «revolução já» é uma coisa que não acontecerá.»

Lida a frase tem duas interpretações possíveis, mas a entoação não parece deixar dúvidas: «a revolução já», ou seja, no imediato, «é uma coisa que não vai acontecer». Como o entrevistador não perguntou se o entrevistado continua a acreditar na revolução, e já agora o que entende por revolução, fica a interrogação, no entanto, sobre o alcance último do que o líder comunista disse.

Victor Gill

O açoriano de São Jorge António Machado, 27 anos, militante desde os 18 e como Guilherme deputado municipal da CDU, acha porém «muito fácil perceber o que Jerónimo quis dizer: não vamos derrubar o atual regime pela força e pela via revolucionária.» Ri. «Não vivemos propriamente num regime fascista – aí justificava-se uma revolução armada. Eventualmente quem terá ficado chocado são aqueles supostos comunistas que não se identificam com as nossas posições. Estamos entalados entre os que dizem que somos demasiado moderados e outros que dizem que somos a extrema-esquerda. Mas se queremos participar como partido democrático temos de respeitar a Constituição – aliás defendemo-la com unhas e dentes. O que não nos impede de continuarmos a ser o partido revolucionário que nasceu há 100 anos. Nunca nos desfazemos dos princípios. O que passa é que se calhar quando somos mais jovens somos mais radicais, depois ficamos mais calejados.»

Calejado aos 27? De um lado e de outro do telefonema há risos. Filho de um político que foi candidato autárquico, como independente, quer do PSD quer do PS e CDU, António, que é licenciado em História e está a terminar o mestrado, sendo professor no terceiro ciclo e secundário, assume ter tido «uma educação muito conservadora», que em nada apontava para a sua opção ideológica – como de resto o lugar onde vive, «não propriamente um viveiro de comunistas, mesmo se ser comunista já foi mais malvisto aqui – havia a ideia de que os comunistas queriam acabar com o tudo o que é propriedade privada, dar tudo aos pobres. Acho que já perceberam que não é assim .»

Mas foi lendo coisas – «fui muito autodidata» – e ao chegar aos 18 estava já completamente convicto não só do seu comunismo como de querer fazer parte do PCP. E é o quê, isso? «Acho que o que distingue o PCP dos outros partidos é nunca abandonar o barco da luta por quem trabalha – sempre estivemos ao lado dos trabalhadores, por mais pequena que seja a causa -, e os valores humanos de quem quer estar ao lado dos que precisam.»

Uma deliberação de generosidade, solidariedade e empatia que parece no entanto congregar cada vez menos gente – desde os anos 1990 que o PCP/CDU tem vindo a perder eleitorado, e nas últimas legislativas não chegou aos 7%. António puxa da perspetiva histórica: «Estamos a celebrar 100 anos; já nos passaram o atestado de óbito demasiadas vezes para acreditar que isso vai acontecer. Como historiador acredito que são ciclos. E há ciclos negativos, já passámos alguns.»

«Poderá nunca acontecer comunismo» Ainda assim, o PCP é, entre os partidos comunistas da Europa ocidental, dos que mais resistiram; a maioria ou desapareceu ou foi reduzida à insignificância na sequência da chamada derrocada do Bloco de Leste. E ao fim de 41 anos de democracia como partido de oposição com o PS como inimigo íntimo (famosa expressão de Mário Soares sobre a sua relação com Álvaro Cunhal), ao qual acusava consecutivamente de prosseguir «políticas de direita», fez um acordo de governação. Princípio de um novo ciclo ou de um fim antecipado?

António não vê «o PCP a entrar num governo com o PS – dificilmente eu apoiaria isso». Mas o acordo de 2015 foi «a decisão certa: temos de analisar as coisas à luz dos acontecimentos, e vínhamos de uma governação de CDS/PSD em que se tinha batido tanto no fundo que não poderíamos permitir mais. Se é a solução ideal? Obviamente não é, mas não acho que seja um sapo que tenha de engolir. Apoiei o partido nisso. Acredito que em parte nos responsabilizem por erros do PS – mas tivemos de assumir um compromisso. Parece que há camaradas que se desligaram do partido por isso, mas não conheço ninguém que o tenha feito.»

Em todo o caso o andar da carruagem, com a irrupção da extrema-direita, parece condenar os partidos à esquerda do PS a manter uma aliança cujos efeitos no seu eleitorado não são fáceis de interpretar. António, bem consciente do que se passou nos Açores, com a aliança de PSD, CDS e PPM com Chega e Iniciativa Liberal para viabilizar o governo dos primeiros, assente: «Obviamente que se a única solução for o PCP dar a mão ao PS para impedir a extrema-direita de chegar ao poder…»

A ideia de sair da moeda única – «que tanto baixou o nosso poder de compra» – e mesmo da UE, que considera «já não servir o país nos moldes atuais, tendo-nos feito perder o nosso ADN, com a retirada de soberania e de capacidade de produção» parece assim uma miragem cada vez mais longínqua. Mas, reconhece António, «é preciso trabalhar com o que há.» Mesmo se, vinca, «não se aceita tudo o que nos dão.»

O PCP não como motor da história, então, mas como uma influência de moderação? «Esta nova realidade está a transformar a esquerda num discurso muito social-democrata», admite João Lázaro, 35 anos, militante do PCP há 18. «E ainda bem. Não há força para todas as batalhas e é preciso proteger o trabalho, a democracia, o SNS, o Estado de direito. Se isso pode ser uma negação do ideal comunista?» Hesita. «O comunismo tem um lado muito utópico. Poderá nunca acontecer comunismo. Mas com os novos atores políticos a ganharem mais terreno, se calhar o movimento sindical tem de se moderar para preservar o que há. Eu por exemplo sinto-me muito mais moderado com esta nova conjuntura. Porque agora o que está em jogo é a Constituição – é preciso defender o Serviço Nacional de Saúde, resgatar os direitos perdidos com a troika e com os avanços da extrema-direita. E não há se calhar força suficiente para um contra-ataque.»

A ideia de social-democracia que refere, especifica, não é certamente a do PSD. «É a do Karl Marx, a social-democracia revolucionária. E é preciso lembrar que o PCP é um dos partidos que fundou este regime. Tive algumas discussões com camaradas sobre o PCP não ser partido de sistema, mas claro que é um partido de sistema. Não é um partido revolucionário .»

«Gostava de ver uma crítica mais profunda ao «socialismo real»» Como António, João, que vive na área metropolitana de Lisboa e trabalha como investigador do CIES-ISCTE, é de História. Está a fazer um tese de doutoramento sobre o movimento operário do século XIX em que analisa a correspondência entre Marx e Engels. «Como investigador de História tenho uma posição mais de crítica e de análise. E desde o 25 de Abril tem havido em Portugal um retrocesso no campo operário e no sindicalismo.»

Afastado, por «falta de disponibilidade», da vida interna do partido depois de a dada altura ter tido «tarefas de organização», continua no entanto a pagar quotas e a comprar o Avante!, o órgão oficial. Quando entrou na JCP, em 2003, era, confessa «muito pouco politizado». «A minha entrada foi um bocado ligada à música. Fui a um concerto em que estavam a distribuir uma convocatória da JCP para uma manifestação contra a guerra do Iraque, fui à manifestação e inscrevi-me. Estive na guerra contra as propinas no secundário, depois trabalhei em fábricas. Só entrei na faculdade aos 22 anos, já filiado no PCP

Gostou muito do que viu no partido – «Aprendi muito e conheci camaradas e militantes que dão muito à causa sem ter nada em troca» – mas «com o passar dos anos há divergências, é normal. Porque o comunismo, que nunca foi realizado em lado nenhum, é diferente para cada um dos comunistas. Nesta lógica de nunca se ter lá chegado e se calhar nunca se ir chegar .»

Como Guilherme, gostaria que o partido tivesse votado a favor da eutanásia, e se opusesse à tourada («Rompe com uma longa tradição no movimento operário português contra as touradas, iniciada em 1869 no Centro Promotor, que vai continuar a existir no antigo Partido Socialista, que é uma voz crítica à construção da praça de Touros no Campo Pequeno, e no I Congresso do PCP, em 1923, quando é aprovada a proposta de «extinção dos espetáculos de tauromaquia» – cito de cabeça»). E de «ver uma crítica mais profunda ao «socialismo real». Porque a meu ver a URSS é uma experiência fracassada que teve aspetos positivos mas era necessário aprofundar esse debate. Teria de se fazer uma crítica mais profunda dessas experiências .»

Há quem, pelo contrário, ache que está bem assim. Caso de Mónica, a única militante do PCP, de todas as contactadas, que aceitou falar com o DN, e que prefere não divulgar o apelido: «Acho que o PCP sempre se demarcou das experiencias que não correram bem nos países que se disseram comunistas. Para mim aquilo nunca foi comunismo.»

«O PCP é demasiado bem comportado, pouco revolucionário» Nascida há 37 anos em Lisboa, Mónica, licenciada em Estudos Asiáticos e mestranda em Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Nova de Lisboa, trabalha como intérprete para uma empresa mineira, e reside normalmente em Antuérpia, na Bélgica. Inscreveu-se no PCP em 2018. «Fui simpatizante toda a vida mas só agora decidi ser militante. Fui para o PCP sozinha: a minha família é de esquerda mas não se motivam muito pela política e nem entre os meus amigos há comunistas. À minha volta não tenho ninguém com as minhas ideias. Porém desde a adolescência que acho que é o partido que sempre lutou mais pelos direitos das pessoas. E sinto um orgulho imenso e um sentimento de pertença. Há um lado de grande emoção coletiva e entusiasmo que este partido tem, principalmente pela parte das pessoas que estiveram na luta antifascista. Tenho memória histórica apesar de não ter vivido isso .»

Sente também, porém, que «o PCP não é muito bem visto. Há um grande preconceito. As pessoas de fora, quer em Portugal quer na Bélgica, não compreendem a dinâmica do partido. Há a ideia de que é uma coisa desatualizada.» A sua voz, porém, atesta a paixão. «Sabe, há coisas muito bonitas que as pessoas de fora desconhecem, a extraordinária solidariedade que existe entre camaradas. Por exemplo se alguém estiver doente e não tiver dinheiro alguém indica um médico comunista que não cobra a consulta.»

Pedindo-se-lhe para definir o que é ser comunista, Mónica começa pela tautologia: «Desde logo é pertencer ao PCP, respeitar os estatutos do partido, tentar implementar uma sociedade socialista mais igualitária.» Hesita. «Não pensei no que é essa definição. Mas é lutar por uma sociedade que possa combater as injustiças sociais, acabar com a pobreza, querer um sistema de saúde que sirva a todos, um serviço de educação que dê oportunidades a todos. A igualdade de direitos, a fraternidade e a solidariedade humana numa sociedade aberta ao mundo.»

Afonso Franco, 20 anos, tem problemas com a definição de Mónica do que é ser comunista. Desde logo porque se afirma como tal e não é do PCP, e não quer ser – «Não para já pelo menos.»

Porquê? » Há algumas coisas que o PCP faz que não percebo. Falta-lhe uma veia verdadeiramente revolucionária, como ao Bloco. Em O esquerdismo, doença infantil do comunismo [ensaio de 1920], Lenine fala dos legalismos e diz que até o próprio parlamentarismo pode ser usado como meio de descredibilizar as instituições. Mas o PCP é demasiado respeitador das instituições, demasiado bem comportado, pouco revolucionário. E acho que não há grande hipótese de deixar de ser isso.»

Exemplifica: «João Ferreira fez uma campanha presidencial toda à volta da Constituição e da sua defesa. Mas a Constituição defende a propriedade privada.» E como imagina este estudante de jornalismo no Instituto Politécnico de Portalegre um partido revolucionário numa democracia parlamentar? Afonso não se atrapalha: «Poderia ser o tal partido comunista revolucionário que se recusava a participar no parlamento ou em qualquer mecanismo democrata. Ou podia, como o partido bolchevique russo, participar no parlamento e conseguir fazer uma revolução sem ter a maioria. Um partido pode participar nas eleições democráticas e mesmo assim ser revolucionário. Pode haver margem de negociação com outros partidos mas não sempre.»

«Como é que fazes uma revolução hoje?» A negociação da «geringonça», por exemplo, pareceu-lhe bem. «Não tenho muita opinião sobre isso, mas acho que a situação foi a melhor para tirar a direita do poder. Se foi mau para o PCP não sei nem me interessa muito, foi bom para o país.»

Tendo-se descoberto comunista há nove meses – «Foi um processo de radicalização na pandemia mais por causa do Twitter, comecei a seguir comunistas, a concordar demasiado com eles (o que me afastou mais do Bloco foi a posição sobre a prostituição) e decidi comprar uns livros» – ganhou interesse por uma organização chamada Esquerda Revolucionária que faz parte, explica, de «um movimento internacional». «Têm bibliografia recomendada. Li o Manifesto Comunista , de Marx e Engels, O Estado e a revolução , de Lenine, uns livros de Cunhal e agora vou começar no Trotsky – autor que o PCP não recomenda, naturalmente.»

E como defines ser comunista? «Hum. Talvez como afirmação de um traço de caráter de uma pessoa. Perceber como se situa no espectro da esquerda – se defende verdadeiramente o homem livre, aquele que não depende de nada para tomar as suas decisões. No capitalismo não se pode ser livre. Sinto um sentimento de revolta em relação a isso: as pessoas se quiserem parar de trabalhar um dia não podem, porque morrem à fome .»

Afirmando-se «contra o trabalho assalariado», Afonso admite «esperar bem ter um salário. Por eu defender uma sociedade diferente desta não quer dizer que não aceite viver nos termos desta e lutar para que o trabalho seja mais bem recompensado e reconhecido enquanto a outra sociedade não vem .»

Ri: «Os meus pais foram sempre ligados à política – a minha mãe é do Bloco e chegou a ser candidata à Câmara, embora já não seja militante agora, e o meu pai oscila entre o BE e o PS. Com a sua veia reformista, perguntam-me: como é que fazes uma revolução hoje? Lenine defendia que se ocupava a praça e Trotsky ocupou as companhias de eletricidade e os jornais…»

E os jornais e o jornalismo continuam, cem anos depois, acha Afonso, a ser muito importantes. «Por exemplo há vários meses que os agricultores indianos estão a fazer manifestações de protesto, coordenados pelos partidos comunistas da Índia, e não se fala disso nos media.»

Este outro entrevistado concorre: «Estamos a voltar um bocadinho à clandestinidade. Há muitas notícias que só encontro no Avante! O fundamental para aferir as intenções de voto das pessoas hoje tem a ver com a comunicação social clássica. A comunicação social manipulada por interesses económicos desinforma as pessoas. Se todos os portugueses se dessem ao trabalho de espreitar o jornal Avante! se calhar pensariam de forma muito diferente sobre o PCP

«A minha militância tem de ser ainda, em 2021, clandestina» Quando fala em clandestinidade o novo entrevistado não está exatamente a ser metafórico. O seu mail de resposta ao apelo no Twitter começa assim: «Teria um grande gosto em ajudar mas por infelizmente o preconceito e a discriminação relativamente a quem defende uma sociedade sem classes sociais, dita comunista, ser uma realidade que temos de enfrentar diariamente, com fortes represálias profissionais, impedimento no acesso a direitos e exclusão social, não está ao meu alcance a possibilidade de tornar pública a minha militância política e partidária, sob pena de prejudicar, mais do que a mim mesmo, aqueles com quem trabalho, vivo e com quem assumi o compromisso de ter projetos de longo prazo.» Assina Pedro, 34 anos, lisboeta, trabalhador na área da cultura, militante do PCP há seis meses. «A minha militância tem infelizmente de ser, ainda hoje em 2021, clandestina. Por medo de represálias. Tal como acontece com a militância de muitos milhares entre os cerca de 50 mil afetos ao PCP»

Fala pois com o DN sob condição de anonimato. Sem militâncias políticas na família, votara ao longo da vida no BE, PS e CDU, até se encontrar com esta identidade. Um encontro para o qual teve importância «sentir que por mais que trabalhe a minha qualidade de vida não melhora»

Na definição é taxativo: «Sou comunista porque é a única proposta que encontro na história das ideias que permite que através dela se chegue a uma sociedade sem classes sociais. Acredito nisso e acho que seríamos todos felizes. O marxismo-leninismo é uma ideia que resiste.»

Como conseguir continuar a acreditar numa coisa que ninguém conseguiu pôr em prática? É Pedro que coloca a questão clássica e lhe responde: «Houve muito poucas tentativas. Nos momentos em que correu mal foi justamente quando se traiu o ideal comunista. Porque se temos um ditador isso já é uma negação do ideal; o comunismo tem a ver com o coletivo. Mas temos no planeta todo, neste sistema capitalista que supostamente funciona, milhares de pessoas a morrer à fome.»

Neto de operários que se considera «de algum modo operário, mas não numa fábrica», e filho de duas pessoas que «graças ao 25 de abril conseguiram entrar na universidade, quando antes não tinham perspetivas disso», tenta explicar o estigma associado um partido, que crê ter sido e ser ainda fundamental para o país. «É-me difícil perceber os preconceitos das pessoas. Mas se olharmos para a TV não vemos o PCP representado de forma natural. É um partido que não existe nos meios de comunicação. E depois ser do PCP é associado a ser pobre – e as pessoas não gostam de ser vistas como pobres.»

Foi a noção desse olhar que o levou a só se inscrever agora. Mas sentiu que era a altura: «Tomei esta posição muito pelo crescimento da extrema-direita e por perceber que só o PCP oferece uma oposição coerente e consistente. Tem um legado de como saber lidar com a extrema-direita.»

«O comunismo existe nas brechas do capitalismo» Nuno André Patrício é o único nesta reportagem a ter nascido numa casa comunista. O pai, que morreu em janeiro, de Covid, foi militante ainda na clandestinidade, desde a tropa, a mão tinha sido da JCP. «O comunismo sempre existiu na minha casa. E havia aquelas conversas à mesa em que eu perguntava: «Então e a URSS? Então e a Coreia do Norte?»» Ri. «E o meu pai chamava-me pequeno-burguês e saía chateado da sala. As provocações do Twitter nessa altura eram à mesa de jantar.»

Mas aos 37 anos Nuno, urbanista e arquiteto que trabalha, na sua própria descrição, em «políticas urbanas e direito à cidade», é militante há apenas «sete ou oito meses.» Votava quase sempre no PCP, porém «tinha aquela coisa de pensar sou de esquerda mas não há nenhum partido com o qual me identifique»

Havia «o laço afetivo e familiar com o histórico do partido e a consciência de que muito do que temos hoje foi em grande parte contributo da sua luta», mas que o fez avançar foi, crê, a sua experiência no Brasil. «Estive nove anos no Rio de Janeiro, onde trabalhei com urbanização de favelas e habitação social, e percebi a importância da militância. Estar organizado e militar numa organização é importante. Podemos estar no Twitter e fazer o nosso trabalho mas é muito diferente estar organizado. Os trabalhadores organizados têm muito poder.»

Também pesou a ascensão de Bolsonaro: «No Brasil perdeu-se a ligação às bases, e os evangélicos trabalharam isso. O vazio é sempre ocupado. Então achei que tinha de ultrapassar a visão mais individualista de não me identificar com tudo. Sabemos que há partidos que têm implantação no meio académico, numa elite urbana – posso-me considerar como classe média com estudos académicos – mas pensar o que serve mais os meus interesses não me faz muito sentido. Quero estar com quem representa aqueles que têm menos voz. Acho que a luta de classes ainda faz sentido.»

Ser comunista é então «resistir, lutar contra a opressão deste sistema que está a destruir o planeta.» Faz uma pausa, a voz volta mais suave. «Os comunistas têm muito esta coisa da perda das narrativas – «Perdemos, nunca se chegou lá». Mas acho que há comunismo todos os dias, sempre que há relações não mercantis, comunitárias. Há comunismo nas brechas do capitalismo.»

«Porque é que a defesa do capitalismo não é um extremismo?» Conta uma história: «Houve uma experiência no bairro de Francos , no Porto. Havia um terreno abandonado e as pessoas que viviam à volta, sobretudo as de um bairro social, começaram a cultivar, a fazer hortas, a criar galinhas, coelhos. Durante décadas. Produziam muita coisa, acudiam a carências sociais. Fui lá algumas vezes. Não se consideravam comunistas, mas para mim aquilo é o comunismo – quando as pessoas fazem coisas fora do sistema mercantil. A meu ver o que se pode construir do comunismo é abrir estas brechas. Mais do que trazer informação difícil de mastigar sobre o fim do capitalismo, fazer a pedagogia para a autonomia. Há um inglês, John Holloway, que escreveu um livro, Change the World Without Taking Power / Mudar o mundo sem tomar o poder , em que diz que o comunismo nunca existiu como regime mas existe nestas situações .»

No Brasil, Nuno conheceu uma experiência dessas em grande escala, a Rede Ecológica , que consiste numa associação de agricultores de cultura familiar que vendem diretamente aos consumidores, a um preço mais baixo que o do supermercdo, e cuja certificação biológica é feita pelos próprios consumidores organizados. «O que considero ser comunista é muito este trabalho de base com pessoas. A melhor forma de tentar superar os problemas é de forma coletiva, organizada. Estou muito mais próximo disso, de um comunismo que lá na frente não precisa do Estado porque as pessoas vão conseguir organizar-se.»

Sorri. «Não sou um grande teórico. Li o Capital , e nem sequer todo. E sei que isto que estou a dizer parece um sonho, é bonito – mas as pessoas chateiam-se umas com as outras, é normal.» E não são todas boas; talvez ninguém o seja. George Orwell fez em Animal Farm uma fábula dolorosa sobre a traição do sonho, sobre como se abrem brechas nas brechas. Sobre a perda de horizonte, várias décadas antes de alguém usar a expressão «derrocada das grandes narrativas»

Sim, é complicado, admite Guilherme Freches. Mas estado natural do ser humano é o capitalismo e tudo o resto é extremismo?, pergunta. E responde: «Há muita gente que diz que o PCP e o Bloco são extrema-esquerda. Mas se são extremos porque se opõem ao capitalismo, porque é que a defesa do capitalismo não é um extremismo?»

É verdade que não houve, conclui, «nenhum comunista que não tivesse morrido sem ver a utopia realizada. Mas todos os passos nesse sentido são positivos. Gosto muito daquela frase de Jerónimo de Sousa: nem sempre se ganha mas sem lutar perde-se sempre .»

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