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Tips Femeninos | 'Não tem como se proteger, não há lugar seguro': moradora de Gaza relata rotina sob bombardeios israelenses

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PUBLICIDADE Soube também de uma amiga, ela é uma jornalista, tinha mais de 30 anos e estava no quarto mês de gravidez. Ela foi morta em um dos ataques com outros dois filhos. Isso foi muito difícil de ouvir, não há como justificar o assassinato de uma mulher grávida com seus dois filhos de forma alguma

A trabalhadora humanitária Rasha N. Abushaban, de 35 anos, mora no oeste da Cidade de Gaza com seus pais e outros parentes. Ela viveu as três guerras travadas entre o Hamas e Israel, em 2009, 2012 e 2014, além de inúmeros outros confrontos. Mesmo assim, Abushaban, que morou fora do enclave apenas em 2018 — enquanto fazia um mestrado na Universidade de Birmingham, na Inglaterra, graças a uma bolsa — afirma que o atual conflito «é ainda mais difícil». Ao GLOBO, durante bombardeios que já duram dez dias e mataram mais de 230 palestinos em Gaza, ela narra uma rotina de tensão, recebendo notícias de conhecidos mortos, noites em claro e com uma incerteza sobre o que pode acontecer com ela e sua família. Leia seu depoimento:

«Gaza tem 360 quilômetros quadrados, com 2 milhões de pessoas, uma das maiores densidades populacionais do mundo. A maioria dos prédios aqui é mais vertical, são muitos edifícios com várias famílias.

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Quando os bombardeios miram prédios residenciais, alguns não muito longe de onde moro, isso significa que dezenas de famílias estão deslocadas agora. São prédios de 11, 15 andares, e elas têm que ir para casas de parentes ou abrigos. Mas em Gaza não há abrigos, então precisaram abrir escolas para acomodar essas pessoas.

O corte de eletricidade é mais frequente. Normalmente, esta é a vida normal em Gaza. Temos cerca de oito horas com energia e oito horas sem nos dias normais, mas agora o corte é maior, porque eles estão mirando nas usinas de eletricidade. E isso afeta o fornecimento dos geradores dos hospitais.

Rasha N. Abushaban, de 35 anos, moradora da Faixa de Gaza Foto: Arquivo pessoal Aqui, nós precisamos comprar água potável e gás, não podemos beber a água da torneira. Nossa caixa d’água por enquanto está servindo, mas estamos tentando arrumar um jeito de reabastecê-la, porque ninguém pode sair de casa. Não é seguro para ninguém andar na rua. Em relação à comida, honestamente, nós não estávamos preparados para a escalada [da violência]. Então, demos um jeito pegando emprestado de alguns vizinhos.

Não há palavras para expressar como são os ataques aéreos, para ser honesta. Numa noite eu estava tentando descansar olhando para a janela da minha casa e vi luzes enormes. Eu sabia que isso seria seguido por ataques aéreos, mas eu não conseguia me mover. Eu estava congelada, vi as janelas bombardeadas e fui empurrada contra a parede.

PUBLICIDADE Não temos muito como nos proteger, não existe um lugar seguro. Uma noite vizinhos contaram que uma casa no final da rua poderia ser um alvo. Não sei como eles souberam daquilo, geralmente o aviso vem com um telefonema das Forças Armadas israelenses para um dos moradores, dizendo para evacuarmos. Os vizinhos vão avisando uns aos outros ou um helicóptero lança um míssil, avisando que haverá um ataque aéreo.

Então nós descemos, pegamos alguns documentos importantes, um pouco de dinheiro. Descemos as escadas, isso tudo só para minimizar o impacto, ficamos por algumas horas, com várias famílias inteiras, crianças, mulheres, meus irmãos e suas famílias e outros vizinhos do prédio. Mas nada aconteceu. Deve ter sido uma notícia falsa ou um mal-entendido.

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Em outros casos, há pessoas que mesmo avisadas não tiveram tempo de sair. Quando tem o aviso, você não sabe se vai demorar 10, 15 minutos, uma ou duas horas. Há todos esses fatores de imprevisibilidade e incerteza que nos mantêm nervosos.

E nem todas as pessoas recebem o aviso de antemão. Teve um homem, que é deficiente e usa cadeira de rodas, que não conseguiu sair de casa, e quando o míssil chegou ele foi morto. Outro ataque aéreo matou sua mãe.

PUBLICIDADE Soube também de uma amiga, ela é uma jornalista, tinha mais de 30 anos e estava no quarto mês de gravidez. Ela foi morta em um dos ataques com outros dois filhos. Isso foi muito difícil de ouvir, não há como justificar o assassinato de uma mulher grávida com seus dois filhos de forma alguma.

Eu sei que Gaza está passando por muitas lutas há anos, mas as pessoas aqui são decentes e modestas. Somos honestos, de carne e sangue, e nós merecemos estar seguros e protegidos.

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É muito difícil. Desta vez é ainda mais difícil porque há todos esses sentimentos contidos, acumulados ao longo dos anos, que foram despertados novamente. E quando eu digo que não houve ataques nesse meio tempo, não quer dizer que estamos bem. Há o bloqueio de nossa passagem [as fronteiras de grande parte de Gaza são controladas por Israel e um pequeno trecho pelo Egito], há alguns ataques de vez em quando.

PUBLICIDADE Então nunca está calmo. Dizemos que acabou, mas nunca está realmente calmo.»

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